quarta-feira, 30 de novembro de 2005

  NaNoWriMo

Hoje é o último dia do NaNoWriMo. O "National Novel Writing Month" é um site que se propõe a reunir pessoas com o propósito de, como o próprio título diz, passar um mês escrevendo uma novela. O objetivo é simples: escrever um texto de 50,000 palavras durante o mês de novembro. E tudo se traduz em termos quantitativos: não importa a qualidade; importa apenas que o texto tenha mais de 50,000 palavras!
Como eu só descobri o site com o mês em andamento (lá pelo dia 7 de novembro; perdi, portanto, a primeira semana inteira de trabalhos), e estava envolvida com um zilhão de provas e trabalhos na facul (aliás, a saga continua -- sexta-feira tem a última prova), acabei empacando pouco depois das 7 mil palavras, sem que tivesse acontecido coisa alguma na minha história -- é nisso que dá não planejar antes o que se vai escrever...
Mas para o ano que vem, pretendo elaborar um roteiro mais interessante a ser seguido :) A idéia do site é bem bacana, e funda-se no princípio de que, ao escrever 50 mil palavras, não importando a idiotice que sair, a pessoa acaba exercitando implicitamente a escrita :D

Meu texto -- para demonstrar a falta de planejamento, ele não tem nem título... -- é sobre um rapaz que foi abandonado na infância e que.... bem, eu realmente não planejei o que aconteceria depois :P O capítulo 1 teve 12 páginas, e interrompi a história no começo do capítulo 2, ainda na primeira página, ao dar-me conta de que eu não só não teria tempo de concluí-la até o final do mês, como também não saberia que rumo dar à história! O resultado foi a façanha de não dizer absolutamente nada (exceto que o cara foi abandonado na infância.. :P) em um texto de 7.238 palavras! Eis um trecho:

"Decidi ir em busca de meu passado. Eu deveria ter feito isso antes, mas precisava de um motivo que me colocasse de volta no caminho em busca de determinados fatos já acontecidos há muitos anos e que ainda me atormentam a memória. Minhas lembranças são recheadas de histórias que eu preferia esquecer. E, no entanto, quanto mais me esforço para apagá-las, mais elas cismam em aflorar-me à consciência, cada vez mais fortes, cada vez mais céleres, cada vez mais aterrorizantes."




terça-feira, 29 de novembro de 2005

  Execuções penais

Recentemente os jornais deram destaque ao juiz Livingsthon José Machado, da Vara de Execuções Penais de Contagem-MG, que alegou superlotação para tomar a infeliz iniciativa liberar detentos da 2ª DP de Contagem. Ora, num espaço para 28 pessoas (será mesmo que cabiam 28 pessoas lá dentro?), estavam 103. Como ninguém tomava nenhuma atitude, o juiz simplesmente decidiu soltar alguns presos... A conseqüência foi o afastamento do magistrado, por decisão unânime dos desembargadores do estado.
O episódio chama a atenção para a situação degradante dos detentos em nosso país. Eles se amontoam em espaços reservados para menos da metade de pessoas, e precisam abusar da criatividade para que todos consigam dormir, respirar, ou simplesmente viver.
E o que mais indigna é que a mídia não tem tempo para se preocupar com essas coisas. Mas garanto que se os grandes jornais denunciassem essa situação, em seguidinha ela mudaria... :P
Os meios de comunicação de massa estão muito ocupados preenchendo nossa pauta de discussões diárias (agenda setting?) com coisas completamente frívolas... Eles, coitados, não podem conscientizar o cidadão, sob pena de perder o público...
Mas como meu blog é um meio de comunicação que atinge... sei lá, 2 ou 3 pessoas? (não faço mais a velha suposição de que tenho apenas uma única leitora :P), não custa nada tentar mudar a realidade (pretensão feliz e utópica! \o/) a partir dos meios [singelos] de que disponho.

Então, [bem] hipoteticamente falando... Imagina se uma lei dessas cai na mão de um preso:

Lei 7.210, de 11 de julho de 1984
(Lei de Execução Penal, que entrou em vigor junto com a reforma da Parte Geral do Código Penal em 1984)

     Art. 1°. A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado.
(...)
     Art. 5°. Os condenados serão classificados, segundo os seus antecedentes e personalidade, para orientar a individualização da execução penal.
[vai dizer que esse começo da lei não é a coisa mais meiga do mundo?]

     Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade.
     Parágrafo único. A assistência estende-se ao egresso.
     Art. 11. A assistência será:
I - material;
II - à saúde;
III - jurídica;
IV - educacional;
V - social;
VI - religiosa.
     Art. 12. A assistência material ao preso e ao internado consistirá no fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas.
(...)
     Art. 17. A assistência educacional compreenderá a instrução escolar e a formação profissional do preso e do internado.
(...)
     Art. 21. Em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada estabelecimento de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos.
(...)
     Art. 28. O trabalho do condenado, como dever social e condição de dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva.

[e o que eu ainda estou fazendo aqui, na patética vida em sociedade? Eu quero ir para , para esse lugar onde há livros a toda hora, ensino profissional gratuito, alimentação, emprego para todos, etc... :P]

Alguns artigos, parágrafos, incisos e alíneas adiante, há os dispositivos que falam sobre os direitos e deveres dos presos -- simplesmente utópicos demais! Vale a pena dar uma conferida.... Mas o maior absurdo encontra-se no Título IV, "Dos estabelecimentos penais"...

O capítulo II fala sobre as penitenciárias:
     Art. 87.A penitenciária destina-se ao condenado à pena de reclusão, em regime fechado.

[Obs.: regime fechado é para crimes de mais de 8 anos de condenação; no caso de crimes hediondos, o preso tem como punição por ter sido muito malvado o fato de que não terá direito à progressão de regime, e, por isso, terá de cumprir a pena toda em uma penitenciária.]

     Art. 88. O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório.
     Parágrafo único. São requisitos básicos da unidade celular:
a) salubridade do ambiente pela concorrência dos fatores de aeração, insolação e condicionamento térmico adequado à existência humana;
b) área mínima de 6m² (seis metros quadrados).

E tem mais: a lei ainda estatui, nos capítulos III e IV do mesmo título, que os presos do regime semi-aberto cumprem pena em colônias agrícolas, industriais, ou similares (podendo ser alojados em celas coletivas, desde que observados os requisitos do § único do art. 88, alínea a... :P -- pena que não há menção à letra b :P) e os presos de regime aberto deverão ser alojados na chamada "casa do albergado"... e é sobre esta que se encontra outro artigo bastante interessante da lei:
     Art. 94. O prédio deverá situar-se em centro urbano, separado dos demais estabelecimentos, e caracterizar-se pela ausência de obstáculos físicos contra a fuga.

Claro que na prática nada disso funciona. Observe que a lei possui todos os verbos no futuro do presente, o que só ressalta a idéia de que já nasceu como uma mera pretensão de justiça, totalmente afastada da realidade. E os presídios que misturam todos os presos não são ilegais não: o dispositivo que permite essa bagunça toda, de um mesmo presídio abrigar tudo quanto é tipo de preso, e no mesmo lugar, é o bizarro parágrafo 2° do art. 82:

     §2°. O mesmo conjunto arquitetônico poderá abrigar estabelecimentos de destinação diversa desde que devidamente isolados.

Ou seja... a própria lei excepciona e declara, de forma contraditória, que tudo aquilo que ela mesma dispõe pode ser deixado de lado se a situação exigir.

E, last but not least,
     Art. 85. O estabelecimento penal deverá ter lotação compatível com a sua estrutura e finalidade.

É aí que reside a questão!! -- É esse o grande problema do sistema penitenciário brasileiro: como atender à demanda de delinqüentes (não querendo reduzir o problema a uma questão de economia...) quando a oferta de estabelecimentos, mesmo os precários, é bastante reduzida?
Numa sociedade ideal, as pessoas teriam igual acesso aos recursos, não se encontrariam populações marginalizadas, e, por isso, não seria necessário delinqüir e as prisões esvaziariam... (futuro do pretérito... :P isso é bem mais utópico que as aspirações teoricamente possíveis da lei).
Se tal rumo constitui-se em tarefa árdua de se concretizar, por que não tentar o caminho inverso? Assim, não seria útil melhorar o sistema carcerário para que o preso seja de fato ressocalizado, para que ele retorne à sociedade sentindo-se mais humano, capaz de provocar mudanças no status quo? Voltando conscientizado e com curso profissionalizante o ex-presidiário pode melhorar as condições de vida de sua família, e, assim operar o caminho inverso, de modo que o investimento inicial com o sistema carcerário se converta novamente em ganhos sociais.
Ora, se a realidade carcerária brasileira fosse como dita a lei, o juiz de MG não precisaria desrespeitá-la... :P

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Em tempo: Não agüento mais respirar Direito Penal! Desde a semana passada estou tendo apenas aulas de Penal, feito apenas provas de Penal, lido apenas livros de Penal, pensado apenas em Direito Penal... aaaaaaah! Ainda bem que depois de sexta-feira, dependendo da minha nota na última prova, estarei livre :D

P.S.: este post ainda não passou pelo devido processo legal dos posts de blog... logo, reservo-me no direito de alterá-lo, ou até mesmo a deletá-lo, nos próximos dias :P

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segunda-feira, 28 de novembro de 2005

  Caos

"What is Chaos?" é um nanocurso online (realmente minúsculo :P) para quem quer entender um pouco mais sobre a noção de caos da Física. O curso é dividido em 5 lições (cada lição tem de 10 a 20 frases, apenas) e, em uma linguagem bastante didática, explica para qualquer leigo conceitos como o determinismo de Newton e o efeito borboleta de Lorenz :)

(encontrado via Stumble Upon)

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domingo, 27 de novembro de 2005

  Nemester

Nada como uma rede anti-social de internet:

"Joining Nemester will put you in the vanguard of enmity technology. Don't let your enemies get the upper hand by joining before you do."

:P



sábado, 26 de novembro de 2005

  Bump

Hoje senti saudades dos meus tempos de FanForum... Eu passava madrugadas inteiras postando por lá (*suspiro*). Sobre seriados, trivialiadades, e, principalmente, treinando o inglês -- num tempo em que eu não me preocupava em escrever certo, simplesmente porque ainda não sabia como fazê-lo.
Bump era o termo que designava quando uma pessoa ia em um thread e postava qualquer coisa, com a intenção nítida de fazer com que o tópico aparecesse na lista dos mais ativos/mais recentemente atualizados. Com o passar do tempo, o povo deixou de lado a enrolação e passou a escrever apenas "bump" em posts especificamente designados para isso (e algum tempo depois o bump passou a ser proibido :P). Então, é isso. Este post é um bump :)



quinta-feira, 24 de novembro de 2005

  Indagaçãozinha básica

Cadê a chuva???



  Semana dedicada ao Direito Penal

Desde ontem, eu estou de férias em todas as matérias, menos Direito Penal (e continuam também as inócuas aulas de francês...)... É inegável o sentimento de "oba, estou em férias", mas ele é inevitavelmente associado ao fato de que preciso tirar 7,0 na prova de sexta-feira (tirei 7 na primeira prova, a média é 7, logo... salve-se quem puder!!!)...

Mas, enfim... passar a semana inteira tendo aulas e estudando apenas Direito Penal é divertido (ao menos é bem mais empolgante que, sei lá, estudar Direito Civil). A matéria da prova é a Teoria do Crime:

"Perigo de regredirmos até o infinito: se não fosse o tataravô, não haveria o bisavô; sem este, não existiria o avô; sem o avô, não teríamos o pai e assim por diante, sem contar as alcoviteiras que apresentaram os casais. Todos são causas de um crime cometido décadas, séculos depois pelo produto final de toda essa complicada operação genealógica. Isto nos leva até Gênesis 3." (CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal - parte geral. Pg. 177-179 -- quadro sinótico sobre nexo causal).

É por conta desses absurdos que o Direito Penal excepciona e só pune a título de dolo (intenção de lesionar) ou culpa (negligência, imprudência ou imperícia; assumem-se os riscos de lesão por conta de atitude descuidada por parte do agente). Além disso, há uma teoria recente (teoria da imputação objetiva) que também considera a necessidade de expor a risco possível de se concretizar para que a um agente seja imputado um crime. Assim, não basta o nexo causal (relação de causa e efeito entre pessoa e crime) ou os critérios subjetivo (dolo) ou normativo (culpa) para que o crime possa ser considerado como causado por alguém. É preciso também que esse alguém tenha contribuído no sentido de ter criado com sua conduta um risco não tolerado em sociedade. Assim, o pai e a mãe de um delinqüente não respondem pelos atos do filho por ausência de dolo ou culpa na conduta reprovável do fruto de sua prole, e também porque, ao conceberem o rapaz, estavam realizando um ato de risco tolerado em sociedade... (a probabilidade que ele viesse a se tornar um criminoso alguns anos depois era muito pequena :P).

Ah, sim, Gênesis 3 é a localização na Bíblia da historinha de Adão e Eva no paraíso. E é a ação primordial deles dois que deu origem (ao menos naturalisticamente) a tudo quanto é comportamento, lícito ou não, sobre a face da terra (viva a regressão ad eternum!!)

"Se Adão não tivesse provado o fruto proibido, nada disso estaria acontecendo. Ocorre que Adão só o fez influenciado por Eva, a qual agiu induzida pela Serpente, que lá foi colocada pelo Criador. Essa teoria leva à seguinte e inexorável conseqüência: todo mundo é causa de tudo."

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  Da série: crimes bizarros

Roberval estava mal da grana. Parecia que todos os esforços que fazia para economizar no fim do mês se dissipavam com gastos imprevistos com material da escola para o filho da esposa. A família vivia em situação apertada, e Roberval estava cheio de dívidas. Mas como negar à mulher o dinheirinho para comprar uma caixa de lápis de cor para o Marquinhos? Um caderno para o Marquinhos? Um conjunto de tintas guache para o Marquinhos? Basicamente, tudo se resumia à vida do Marquinhos. E não se sabe se foi por ciúmes ou por realmente querer que sobrasse dinheiro no fim do mês para se desencalacrar, mas Roberval chegou à conclusão de que a única solução possível para se livrar das dívidas era matar o enteado. Menos uma boca para alimentar, menos um indivíduo para vestir, menos material escolar para comprar... Roberval fez a previsão de gastos e notou que ia economizar uma quantidade de dinheiro razoável. Daria até para guardar uma parcela para a pinga!
E então Roberval planejou todo o crime. Como a vida de Marquinhos resumia-se à tríade casa-escola-casa, o local mais adequado para o crime seria a própria escola do filho. Ia ser chocante, impactante, mas ao menos aos olhos da mulher ele pareceria inocente. E o importante era parecer inocente perante a mulher, pois tudo o que ele fazia, dizia, era para tentar resgatar seu casamento e garantir uma vida digna à esposa. As noites na cama já não eram tão quentes como no princípio, porque a todo momento o Marquinhos poderia ter um pesadelo e surpreendê-los. E não adiantava trancar a porta do quarto: o menino já sabia que bastava ser bastante insistente que alguém se levantaria para prontamente atendê-lo. Além disso, Roberval sentia-se impotente (no bom sentido) por não poder prover (financeiramente falando) melhores condições para sua mulher. Ela não reclamava, mas seu silêncio era como que uma resignação implícita.
Depois de muito pensar, Roberval decidiu que mataria Marquinhos com uma arma de caça, dessas que disparam chumbinho. Como o menino era pequeno, pensava, era só dar um golpe certeiro que ele morreria em seguida. Não seria preciso gastar muito dinheiro com isso.
O problema seria determinar como matar e não ser percebido... Principalmente em se tratando de um local público!
Algumas semanas depois, levando e buscando o enteado todos os dias à escola, Roberval decidiu que o melhor a fazer era atirar do terraço do prédio em frente (mas era preciso escalá-lo pelos telhados adjacentes; entrar pela porta da frente pareceria óbvio demais!) e acertá-lo na cabeça bem na hora da saída. Ele notou também que o enteado costumava ser um dos últimos a sair da escola, o que reduziria a probabilidade de errar de criança.
Nas semanas seguintes, parou de trabalhar: dedicou-se única e exclusivamente ao aprendizado de como disparar armas de caça e acertar o alvo. Tudo parecia brincadeira de criança, e de fato não deixava de ser, já que ao final de tudo o objetivo maior era atingir uma criança (por mais cruel que isso possa parecer).
E então, no dia marcado, Roberval posicionou-se, sem muito esforço (pois já acostumado) no terraço do prédio onde tinha planejado matar Marquinhos. Enquanto escalava os muros e telhados das casas vizinhas, imaginava mentalmente a cena: ele se posicionaria num lugar onde não fosse visível aos transeuntes, apontaria o revólver para a escola, e, em no máximo 7 minutos, o menino estaria saindo de lá, sozinho. Logo que passasse pela porta, ele olharia para os dois lados, para certificar-se de que seu padrasto não estava por perto. E, então, em um andar desolado, iria até a parada de ônibus esperar por ele. A idéia era atirar no Marquinhos bem no meio do trajeto. Roberval já tinha observado do alto do terraço o enteado saindo da escola tantas vezes que o cobrador do ônibus já nem achava tão absurdo o fato de ele subir no veículo a duas quadras da escola para descer na parada seguinte e pegar o menino.
E então, chegou a hora. Roberval se posicionou. Colocou a arma em punhos. Certificou-se de que estava carregada. Aguardou alguns minutos, que mais pareciam uma eternidade. Chegou a se questionar se devia ou não fazer aquilo, mas a indagação não demorou muito para fugir-lhe à mente assim que se lembrou de que não pagava a conta de luz há três meses e aquele era o dia em que iriam cortá-la... Sentiu raiva do menino. Tanta raiva, que queria matá-lo naquele momento. Sua visão ficou parcialmente cegada: só enxergava alvos. Para onde olhava, via aqueles anéis redondos com um ponto no meio. Sabia que quando atirasse, para onde mirasse, acertaria. Ao ver um corpo se mexendo lá embaixo, puxou o gatilho. Disparou com força. E acertou o anão que vendia doces na esquina...


Resultado: trata-se de erro sobre a pessoa... o agente, pensando em matar A, acerta em B. E esse tipo de erro não exclui a tipicidade do fato. Considera-se vítima virtual o alvo pretendido, e vítima efetiva aquele que morreu de fato. Roberval responderá pelo crime de homicídio doloso contra a vítima virtual (sua intenção era matar a criança... foi um mero detalhe o fato de ter matado uma pessoa diferente....) e sobre ele incidem qualificadoras e agravantes do crime correspondentes ao fato de ter [intencionado matar] uma criança (menor de 14 anos).
O texto acima trata-se de uma "dramatização" e leve adaptação do exemplo dado pelo Capez (e pelo professor, em sala de aula) de erro quanto à pessoa: "O agente deseja matar o pequenino filho de sua amante, para poder desfrutá-la com exclusividade. No dia dos fatos, à saída da escolhinha, do alto de um edifício, o perverso autor efetua um disparo certeiro na cabeça da vítima, supondo tê-la matado. No entanto, ao aproximar-se do local, constata que, na verdade, assassinou um anãozinho que trabalhava no estabelecimento como bedel, confundindo-o, portanto, com a criança que desejava eliminar." (Curso de Direito Penal - parte geral, pg. 223)

Obs.: para se mais alguém não souber o que é bedel:
bedel s. m. Empregado que, nas universidades, faz a chamada e aponta as faltas dos alunos e lentes.
lente s. m. e f. Professor ou professora de escola superior.
(Dicionario Michaelis)
No relato acima, troquei amante por esposa, e bedel por vendedor de doces :P

Obs2: O outro crime da "série"

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quarta-feira, 23 de novembro de 2005

  Filme "Noiva Cadáver"

"A Noiva Cadáver", dos diretores Tim Burton e Mike Johnson, e com vozes de Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Emily Watson, é um filme de animação que consegue ser bastante divertido, ao mesmo tempo em que é absurdamente deprimente. O trunfo principal do filme é querer produzir escárnio a partir da morte: por um lado, sucumbe-se ao riso. Por outro, as imagens de esqueletos caricaturizados estão ali como que para lembrar "ei, você um dia vai ficar reduzido a isso"; da morte ninguém tem escapatória, por mais que dela se tente zombar.
A história se passa num vilarejo europeu do século XIX e é baseada num conto do folclore russo de um rapaz que sem querer propõe em casamento uma jovem morta pouco antes de seu casamento*. Uma parte interessante da história original que é meio deixada de lado pelo filme é a questão de o assassinato se dar por conta de uma onda de anti-semitismo que estava espalhada pelo mundo na época: na história original, a noiva cadáver fora morta a caminho do casamento por grupos que tentavam evitar a proliferação de judeus.
A atmosfera do desenho faz lembrar um filme antigo, com trechos musicais (e essa é a parte mais tediosa dos desenhos animados... :P), cenas em preto e branco, roupas de época, personagens caricaturais que ostentam títulos vagos de nobreza, e outras coisas do tipo. Mas talvez o que mais chame a atenção é que o filme foi de fato feito à moda antiga, com a técnica de stop-motion — aquela que é empregada para animar personagens feitos de massinha de modelar. Na verdade, de acordo com o CinePop, os bonecos do filme eram feitos de ferro e cobertos de silicone. Ao ver o desenho de forma atenta, quase dá para perceber nitidamente o avanço quadro a quadro das cenas.
No filme, há uma certa inversão de valores intencional. Enquanto o mundo dos vivos aparece como algo profundamente melancólico, em tons quase que exclusivamente cinzas, o mundo dos mortos se apresenta como o exato oposto: nele, há uma verdadeira explosão de cores, combinada com muita música, riso e alegria. A idéia a ser passada é a de que morrer talvez não seja tão ruim assim — e no filme, ao menos, os personagens mais divertidos são aqueles que já passaram desta para uma melhor. É muito fácil ser agradável e bem-humorado quando já se tem a solução para todos os problemas, pois a pessoa morta não tem que se preocupar com o maior problema da vida: permanecer vivo.
Se de cara eles eliminam a velha distinção entre ricos e pobres (pois há um novo rico que irá se casar com uma moça de uma família que está perdendo a riqueza), eles deixam a desejar na distinção tosca entre vivos e mortos. Aparentemente, mortos não podem casar com vivos, pois pertencem a mundos diferentes. Mas tudo bem, quem disse que todos devemos ser sempre iguais?
E é de uma façanha incrível conseguir fazer rir quase que naturalmente quando o olho da mocinha salta da órbita e no buraco vê-se uma larva falante, ou quando algum esqueleto se exalta e sem querer se desmonta ou perde um braço ou uma perna. Ou então numa situação um tanto mais inquietante, como quando o ancião sábio dos mortos simula coçar sua cabeça (crânio) e na verdade o que se vê é um osso fraturado sendo deslocado. Mas apesar do tom melancólico e do tema macabro, o filme consegue sim ser bastante divertido. Uma das sacadas mais geniais é sem dúvida o cãozinho Scraps, que surge de um irônico amontoado de ossos. Outro lance legal é a presença constante de borboletas, simbolizando transformação.
Por tudo isso, a gente é capaz de perdoar o final-clichê do filme -- até porque, na verdade, por grande parte da história, permanece a dúvida do que vai acontecer com o noivo (como nenhuma das duas mocinhas do filme é uma vilã, chega um ponto em que a gente se vê tão dividido quanto o personagem principal do filme...).

E o mais legal de tudo: a cópia que vi do filme era legendada! :D Viva os cinemas recentemente-civilizados de Pelotas!




* a frase foi intencionalmente construída tanto para significar que o rapaz estava prestes a se casar com outra moça, como que para dizer que a noiva-cadáver morrera pouco antes de seu próprio casamento :P mas acho que não ficou claro, por isso a ressalva...

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terça-feira, 22 de novembro de 2005

  Se um viajante numa noite de inverno


Numa mistura de crítica literária e romance de ficção, "Se um viajante numa noite de inverno", de Italo Calvino, é uma obra em que a participação do leitor não é relegada ao segundo plano como nos romances tradicionais.
O personagem principal da obra é o Leitor, e sua missão é ler livros. Só que, estranhamente, todos os livros que ele lê (e você os lê junto!) são interrompidos de forma misteriosa por motivos os mais diversos. E nessa colagem de textos distintos, nesse emaranhado de romances que começam e não terminam, você (que em certo ponto já começa a se confundir com o Leitor) sente-se indignado junto com o personagem, pois também tem interesse em saber o que aconteceria além do que foi lido, ao mesmo tempo que se sente curioso em saber o que vai acontecer com o Leitor, e também em seu envolvimento com a Leitora. Enquanto ao Leitor Calvino atribui apenas traços vagos e indeterminados (para que o leitor comum possa se identificar com ele e se sentir parte importante da história), a Leitora possui nome e atributos físicos e psicológicos bem determinados: ela representa uma leitora de tipo ideal, que adquire o prazer máximo de todo livro que coloca nas mãos.
O livro é complexo e interessante. As dez histórias, escritas por um autor que se desdobrou em dez autores para poder fazê-las tão distintas, funcionam como uma verdadeira crítica à literatura contemporânea que, baseada na superficialidade dos best-sellers e na falta de tempo dos leitores, falha em fazer aquilo que os livros do passado melhor sabiam fazer: criar uma história completa, com começo, meio e fim.
Como uma espécie compensação ao esforço de tentar entender esse verdadeiro entrelaçamento de textos, o final do livro acaba sendo duplo: há um desfecho para o caso dos dez trechos inacabados, e há um final feliz (previsível e anunciado mais de uma vez ao longo do livro) para o Leitor e a Leitora.

[E é impossível dizer algo mais sobre o livro, sob pena de contar o final e fazer perder toda a graça :P]

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  Feriados

— E aí, como foi o feriado?

— Que feriado????



É impressão minha ou essa história de renegar o feriado do aniversário da proclamação da República foi uma coisa generalizada? De minha parte, confesso que não parei em nenhum momento para refletir sobre os valores de se viver numa nação pautada por valores [ditos] democráticos e republicanos, e que também não refleti sobre o quanto a imagem de nossa República encontra-se manchada pelos escandalosos acontecimentos recentes no âmbito político. Mas será que isso também aconteceu com todo mundo?
Particularmente, eu tinha motivos de sobra para nem sentir a passagem do feriado: três provas e um trabalho. Como passei o dia de "folga" inteiro estudando, é como se fosse simplesmente um dia em que não se fosse à aula. Um dia como outro qualquer. Um dia qualquer. Um dia.
Mas, convenhamos, dos feriados dedicados à nação, o da república é o mais inútil de todos. No 7 de setembro ao menos há desfiles. Responda rápido: o que se faz para comemorar a República? Fala sério... dava para fazer um referendo (já que virou moda!) propondo acabar com o feriado da república e transportando-o para um mês que já não tenha outro feriado (2 de novembro - 15 de novembro.. para que dois feriados no mesmo mês e em menos de quinze dias?). Para não perder o cunho político, dava para comemorar algo mais concreto e objetivo, como, sei lá, a abolição da escravatura (embora já haja outro feriado em maio... o problema é que feriado em fim de ano não tem a mínima graça! Qual a utilidade de um feriado a duas semanas das férias? :P), ou a data de edição da Constituição atual (aí teríamos um feriado relativamente móvel, visto que uma Constituição no Brasil não costuma durar mais do que 50 anos... mas num país com uma data tão móvel quanto o Carnaval, o que significa mudar a data de um mísero feriadinho de tempos em tempos?) ou a reconquista da democracia (bem mais interessante que comemorar a República! E dava até para fazer desfiles comemorativos felizes, simulando o dia em que os jovens foram às ruas clamando por eleições diretas)...
O que não dá é para seguir comemorando uma mera decisão arbitrária de meia dúzia de generais de transformar o país de monarquia para república. Tudo bem que esse ato simboliza a passagem do poder político das mãos de portugueses para brasileiros, mas não passa disso. Não reflete os anseios de um povo. Não houve revolta. Não teve a mínima graça. (mas aí poderíamos cair também no desvalor da comemoração da independência; ao menos a independência assinala algo relativamente concreto -- o país passou das mãos de Portugal para... os portugueses...?). Ah, enfim, para que feriados? Abole tudo de uma vez e aumenta as férias no fim do ano! :D

[P.S.: Nunca leve a sério nada do que escrevo no período pós-24h :P]



domingo, 20 de novembro de 2005

  Internet of Things

O relatório deste ano da International Telecommunication Union (ITU) da ONU, entitulado "Internet of Things", chama atenção para o crescente aumento do número de dispotivos, máquinas e chips que está tomando conta da internet e que poderão provocar transformações radicais nas relações da rede nos próximos anos.

"Machines will take over from humans as the biggest users of the Internet in a brave new world of electronic sensors, smart homes, and tags that track users' movements and habits, the UN's telecommunications agency predicted."
(mais informações...)



  Sobre a mídia

O livro "Sobre a Televisão", do sociólogo francês Pierre Bourdieu, é de fato uma crítica ao campo jornalístico em geral, cada vez mais submetido às leis da concorrência e às exigências do mercado. A competição entre os canais de televisão, ao invés de promover a diversificação de ofertas, tem levado a uma verdadeira homogeneização do que é transmitido, porque os outros canais tendem a copiar fórmulas de sucesso, em busca de audiência e maior número de anunciantes (que, na maior parte das vezes, são os mesmos a financiar os mais diversos canais).
Na obra, o autor desenvolve conceitos bem interessantes, como fatos-ônibus ("são fatos que, como se diz, não devem chocar ninguém, que não envolvem disputa, que não dividem, que formam consenso, que interessam a todo mundo, mas de um modo tal que não tocam em nada de importante." Os assuntos-ônibus seriam as notícias de variedade de um jornal, que preenchem o tempo útil com o vazio -- é impossível causar polêmica tratando de assuntos como a previsão do tempo!), a chamada "mentalidade-índice-de-audiência" (que induz à produção voltada para o consumo), e as ilusões do "sempre assim" e "nunca visto". Talvez o livro não devesse se chamar sobre a televisão (a despeito do fato de tratar-se da transcrição de algo que passou na televisão e falar sobre ela -- o que aliás já se constitui numa bela quebra de sintagma!) mas a crítica é tão descaradamente destinada à pessoa do jornalista que é como se o culpado de tudo fosse sempre aquele que produz, (des)considerando as influências do meio em que se veicula a mensagem. Na verdade, o autor ressalta que os jornalistas são tão manipulados como manipuladores. O próprio veículo de informação pode impor limites ao agir individual do jornalista, mas mesmo assim, é ele próprio quem seleciona e constrói o que vai ser mostrado pela mídia. Ou seja, o profissional da mídia coloca uma espécie de "óculos" sobre a realidade, e impõe aos outros sua visão de mundo, exercendo uma espécie de censura prévia ao que vai ser veiculado pela televisão. E são essas "censuras" que fazem da televisão "um formidável instrumento de manutenção da ordem simbólica". O resultado disso tudo é uma verdadeira despolitização do mundo.
E o pior é que parece que o autor tem razão! Ele faz alusão a uma espécie de círculo vicioso que reina no universo jornalístico, do qual não se consegue nunca escapar, e acaba sustentando as idéias dominantes. Um exemplo é o que acontece com a busca ensandecida dos noticiários pela urgência e pelo furo. Para o espectador, é irrelevante saber que uma determinada informação está sendo veiculada pela primeira vez por determinado veículo -- porque, salvo raras exceções, ele só assiste ao jornal de um único canal mesmo. Na verdade, são os próprios jornalistas que vivem a se observar e se auto-exigir tal incumbência (pois quem mais além de um jornalista iria querer ver todos os noticiários de todos os canais, para compará-los e perceber que o seu jornal deveria falar também sobre aquilo que o outro falou?? :P)..
O autor também destaca o fato de a mídia (e em particular a televisão, por ser de fácil acesso) influir na elaboração de leis (no Brasil há exemplos contundentes, como o caso de uma onda de seqüestros que houve no país ao final da década de 80, bastante noticiados pela mídia, e que levou à edição da lei de crimes hediondos, tendo como carro-chefe a inclusão nessa categoria do crime de seqüestro mediante extorsão... outro exemplo, envolvendo praticamente a mesma situação, é o caso Daniela Perez, que levou à ascensão do crime de homicídio qualificado à categoria de hediondo, dadas as inúmeras pressões da televisão, visto que se tratava de um crime contra uma atriz de novela -- o que causou enorme comoção pública -- praticado por um ator -- o que estimulou a necessidade de que o rapaz não ficasse impune -- e deu a calhar de a diretora da novela também ser mãe da vítima -- ou seja, a pressão era tamanha que o legislativo não viu outra saída senão sucumbir ao poder da mídia). Bourdieu fala mal até dos operadores do direito (pois sustentam a hipocrisia coletiva ao se submeterem ao poder da mídia a influenciar suas decisões!).
Assim, o jornalismo na televisão, ao menos das grandes emissoras que precisam fazer de tudo para manter a audiência, está sempre submetido a pressões (externas - concorrência, leis de mercado; ou internas - urgência, medo de entediar e perder o telespectador). O jornal escrito deveria estar livre disso, mas no entanto cada vez mais tem se preocupado em mostrar de forma impressa aquilo que a TV o faz de forma mais atraente: e é assim que crescem o número de imagens, tabelas, quadros, e notícias que não dizem nada e apenas ocupam espaço.
"Em um universo dominado pelo temor de ser entediante e pela preocupação de divertir a qualquer preço", parece que tudo o que a mídia faz é elaborar maneiras de escapar do tédio. E uma das maneiras de fazer isso é mostrar uma "seqüência de acontecimentos que, surgidos sem explicação desaparecerão sem solução". A televisão mostra tudo de forma dinâmica, aparentemente desconexa e de modo fragmentário, e seus telespectadores falham em perceber que no fundo todos os acontecimentos têm alguma coisa a ver com os demais.

As críticas do livro são um pouco exageradas. Mas mesmo assim são válidas como uma maneira de se repensar o papel da mídia na sociedade contemporânea, já que ela tem produzido efeitos sobre todas as demais esferas culturais... :)

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sábado, 19 de novembro de 2005

  Overdose de Google

No site Google Tutor há uma série de dicas para quem quer explorar ao máximo o poder do Google. Dentre as sugestões que estão por lá, achei algumas coisas particularmente interessantes (mas a maioria não serve para nada mesmo :P).
Primeiro, há dois sites-clones do Google (Woogle e Toogle) que usam o banco de imagens do Google para gerar resultados divertidos :) No Woogle, é possível escrever uma frase com imagens (experimente procurar, por exemplo, "the sky is blue"). O Toogle transforma qualquer imagem em uma série ascii com repetições coloridas do termo pesquisado para encontrá-la (só vendo para entender como funciona... :P).
Outra dica curiosa que o site mostra diz respeito às opções de idiomas do Google. Se você prestar atenção na lista de opções disponíveis, vai perceber que há uma chamada "Elmer Fudd" (em português, "Hortelino Trocaletras"). Se você trocar o idioma do Google para essa opção, sua página de buscas ficará um tanto mais divertida :D E há também uma série de outros idiomas falsamente divertidos, como Bork, bork, bork!, Hacker e Língua do P :)

P.S.: Faltou citar Klingon, o Google tem até versão para o idioma falado em Star Trek!!!

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  Controle da Internet

Terminou em nada a reunião da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, organizada pela ONU, e realizada de 16 a 18 de novembro na Tunísia. Estiveram presentes representantes de 170 países, e foram abordados temas como os direitos humanos e a censura na internet, além, é claro, do tema principal - o controle e a administração da Internet.
Até então, o sistema estava basicamente todo nas mãos dos Estados Unidos - uma empresa chamada Icann (Corporation for Assigned Names and Numbers), situada na Califórnia, e vinculada ao Departamento de Comércio norte-americano, é quem detém o monopólio da criação, registro e armazenamento de endereços Ips, o que faz com ela controle a oferta de endereços de internet em todos os países do mundo. Por estar vinculada a um órgão do governo americano, é praticamente como se o próprio governo pudesse decidir a seu bel-prazer sobre a liberação de novos endereços na web. É um risco enorme deixar tudo nas mãos nos Estados Unidos!
Entretanto, durante a Cúpula Mundial da Informação foi criado o Fórum de Governança da Internet, no qual os países insurgentes (como o Irã e o Brasil, que clamavam por um controle internacional dos registros na internet) poderão tratar de questões como segurança, políticas de inclusão digital (a meta realisticamente utópica da Cúpula era traçar estratégias para garantir o acesso de pelo menos metade da população mundial à internet até 2015!) e a regulamentação do comércio online mundial (se bem que para este ponto era mais simples fazer um Conselho de Comércio Virtual, que se reportasse ao Conselho Geral da Organização Mundial do Comércio... :P -- se bem que é bem provável que próprio Fórum de Governança faça parte da OMC...). Basicamente, esse Fórum não vai servir para nada. Os EUA seguem detendo o monopólio da administração da rede mundial de computadores, e os demais países apenas poderão brincar de tomar decisões tratando de temas (bem) mais irrelevantes.
Ao menos a Cúpula serviu para discutir questões como a liberdade de expressão na internet e o direito de informação :) E também para promover discussões acerca de estratégias para a inclusão digital de países em desenvolvimento -- só que os Tios Patinhas lá de cima não estão dispostos a colaborar com o desempobrecimento daqui debaixo, a julgar pelas parcas contribuições feitas por aqueles ao Digital Solidarity Fund das Nações Unidas!

[Editado: se der certo a idéia do laptop de baixo custo para as populações carentes (funciona a manivela! ¬¬), a Cúpula terá servido para alguma coisa, afinal... :P]

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  Notícias fresquinhas

Google News em português :D



  Cartel da mídia norte-americana

"The media cartel that keeps us fully entertained and permanently half-informed is always growing here and shriveling there, with certain of its members bulking up while others slowly fall apart or get digested whole."

O artigo "What's Wrong With This Picture?", do The Nation de 7 de janeiro de 2002 (notícia antiga, mas ainda é válida :P) critica, em tom mordaz, o cartel* da mídia norte-americana, que vem cada vez mais concentrando os grandes veículos da mídia mundial nas mãos de poucos. O professor de estudos midiáticos da New York University Mark Crispin Miller critica a falta de eficácia das leis que deveriam regular tal matéria, e se vê pessimista diante de uma perspectiva de futuro onde o muito que for produzido seja propriedade de poucos.

"Bill Clinton championed the disastrous Telecom Act of 1996 and otherwise did almost nothing to impede the drift toward oligopoly."

Ele também se mostra insatisfeito com relação ao que pode acontecer caso tais conglomerados midiáticos não sejam regulados num futuro próximo, e analisa as conseqüências que ele tem trazido para a sociedade e a cultura americana.
"Of all the cartel's dangerous consequences for American society and culture, the worst is its corrosive influence on journalism."
"The monoculture, endlessly and noisily triumphant, offers, by and large, a lot of nothing, whether packaged as 'the news' or 'entertainment.'"

Em nome do interesse público, seria necessário que a situação atual de oligopólio fosse destituída.
"A media system that enlightens us, that tells us everything we need to know pertaining to our lives and liberty and happiness, would be a system dedicated to the public interest. Such a system would not be controlled by a cartel of giant corporations, because those entities are ultimately hostile to the welfare of the people. "

"In short, the news divisions of the media cartel appear to work against the public interest--and for their parent companies, their advertisers and the Bush Administration. The situation is completely un-American. "

A conclusão é incisiva:
"We therefore must take steps to liberate the media from oligopoly, so as to make the government our own. "

O artigo é acompanhado de uma ilustração em flash detalhando as áreas de atuação de cada uma das corporações que formam o chamado "Big Ten", os dez maiores gigantes da mídia.


* A título de curiosidade, veja o que diz o glossário executivo do dicionário Michaelis acerca do termo "cartel": "União informal de empresas industriais independentes, que produzem bens similares com a finalidade de monopolizar um determinado mercado (market)."
Na visão do articulista supracitado, grosso modo, é isso o que vem acontecendo na mídia norte-americana, onde dez empresas (AOL Time Warner, Disney, General Electric, News Corporation, Viacom, Vivendi, Sony, Bertelsmann, AT&T and Liberty Media) detêm grande parte da produção midiática, em áreas como televisão, publicação de livros, rádios e jornais.

P.S.: artigo encontrado via StumbleUpon :P

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sexta-feira, 18 de novembro de 2005

  Provas

Foi por pouco, mas sobrevivi [quase] ilesa às semanas de provas :D (ainda faltam umas 4 ou 5 provas, mas é como se já tivesse praticamente acabado...). Talvez meu grande problema tenha sido que durante todo o tempo eu estava mais preocupada em aprender tudo aquilo que deveria ter aprendido durante as aulas mas por algum motivo qualquer não consegui apreender, do que propriamente em estudar, revisar uma matéria que já devia estar compreendida. Para o ano que vem, já decidi que vou começar a estabelecer um sistema de prioridades: é impossível dedicar-se interiamente a 11 matérias! Nessas semanas, quando ocorria de ter duas provas num espaço temporal equivalente a um dia (como ter uma prova na noite de quarta, e outra na manhã de quinta) eu inevitavelmente acabava tendo de priorizar o estudo de uma em detrimento de outra. No caso concreto, preferi Direito Constitucional a Foto; Teoria da Comunicação a Civil. No fim, deu tudo certo. Tirei algumas notas vergonhosas, mas creio que nenhuma tenha sido abaixo da média (pelo menos!) :P

Bom, e a partir de hoje, declaro que paro de falar sobre provas aqui no blog e retomo a temática inicial (relações entre direito e jornalismo, ou algo do tipo -- faz tanto tempo que me desvirtuei do rumo que já nem sei mais :P)...

[Editado porque eu (ou o teclado) devia estar sob algum efeito narcótico absurdo na hora de escrever este post, tamanha a quantidade de erros! :P]



terça-feira, 15 de novembro de 2005

  Dolus malus

Fiquei durante algum tempo pensando no que postar por aqui. Como não leio o jornal há uma semana (por causa das provas), evito abrir livros divertidos (por causa das provas), raramente saio de casa (por causa das provas) e fico boa parte do dia encarando o teto (para não ter que estudar para as provas :P), a única solução que encontrei é falar sobre... a matéria das provas :D

É interessante a distinção entre dolus malus e dolus bonus... O meu manual de Direito de Civil (Sílvio Venosa - Direito Civil I) fala que o "dolo bom" é aquele que é tolerado no convívio social, enquanto que o "dolo mau" é o único que merece sanção (no caso do Direito Civil, a sanção é algo tosco e vago, como a anulação de um negócio jurídico -- como diz nosso professor de Penal: quando o assunto é crimes, todo mundo se empolga; ao falar de usucapião, entretanto...). Um exemplo de dolo bom é quando um vendedor diz que seu produto é o melhor do segmento, que nenhum outro produto pode superá-lo em preço e qualidade. Se isso não for verdade, o cara não pode ser condenado por fazer auto-promoção do produto que vende :P Esse tipo de dolo, baseado na conduta de um homos medius, é perfeitamente aceitável na vida em sociedade. Mas também não dá para extrapolar na propaganda, porque as regras do Código de Defesa do Consumidor são bastante rígidas... :)

Ah, enfim... esse assunto não é nada empolgante :P Vou lá retomar meus estudos e pensar em algo melhor para postar assim que passarem as provas :D

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sábado, 12 de novembro de 2005

  Comentário [completamente] inútil

Curiosidade: coincidentemente, só tenho postado em dias pares :P



  Fatos da vida

1. E então o tempo voltou a correr -- Meu relógio foi consertado. Finalmente o ponteiro do começou a andar (Pena -- eu gostava de quando o tempo não passava).

2. Entrei em férias de duas matérias: Direito dos Tratados e Direito Constitucional. Até o final da semana que vem pretendo entrar em férias em mais cinco. Até que a coisa está fluindo :)

3. Minha sala já está quase pronta. Ganhei tapete, o outro sofá e um quadro :D Segunda-feira chega o novo sofá, e dessa vez, terei uma tesoura afiada para desembalá-lo :)

4. Vou tirar a nota mais baixa de minha vida em Foto II :) (ééééé... tem que rir para não chorar :P). Eu não sabia nada na prova escrita (queria ter podido aprender mais...) e não estou conseguindo tirar fotos legais para a prova prática... (maldito sol que vive a se esconder!).

5. As aulas de Penal acabam sabe-se lá quando (a primeira prova foi remarcada para o dia 25 de novembro... o calendário oficial do curso dá como última dia de aula o dia 23!).

6. Pesquisei tanto sobre os Happy Tree Friends para o trabalho de Semiótica que já estou virando especialista no assunto :P Em breve estarei prestando consultoria na área ;) hehe

7. Passei a semana inteira sem ter idéias do que postar no blog. Também pudera: não li jornais, não usei a internet... Foi tudo em função das provas. Alguém tem interesse em saber como se dá o Processo Legislativo? (oh, que empolgante!!)... Tem a iniciativa (geral ou popular), a deliberação, a votação, a sanção (ou veto), a promulgação e a publicação da lei :D Os quórum para uma leizinha normal qualquer é de 10% para colocar em votação, maioria absoluta para votar, e maioria simples (da maioria absoluta presente) para aprovar :D Aí tem aquelas frescurinhas básicas, do tipo que se a lei for complementar, o quórum para aprová-la sobe para maioria absoluta, se for emenda constitucional, o presidente não tem poder de veto, pois não possui poder constituinte (só constituído)... e mais uma parafernália toda de detalhezinhos tão irrelevantes mas que na prática fazem toda a diferença... :P
(viu só? é um assunto nada interessante...)

8. Esqueci o que eu ia dizer... Vá para o fato número 9.

9. Eu deveria estar fazendo um trabalho de Filosofia sobre Direito Natural neste exato momento. Mas como é um assunto tão, mas tão, tão tãããão legal... É mais divertido estar aqui na internet não fazendo absolutamente nada... :P

10. É, não tem 10 coisas para dizer. Viu como minha vida não é nada interessante? :P

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quinta-feira, 10 de novembro de 2005

  Prognósticos de novembro

Eu estou irritada, mas não me lembro por quê. Odeio quando isso acontece. Passei o dia inteiro de mal com alguma coisa que ainda não sei o que é. O que foi que eu fiz de errado comigo mesma? :P

Início das provas = menos posts

Seria bom se fosse possível congelar o tempo em um curso, fazer direitinho as provas e trabalhos de final de semestre do outro, e depois retomar as provas do primeiro :D Não me importaria nem um pouco em desdobrar essas próximas 3 semanas em 6. Tenho uma prova em cada curso intercaladas de modo ad eternum... Começa com Foto amanhã, Constitucional na Sexta -- seguido de um sábado-domingo-Trabalho de Semiótica isolado na segunda-feira do feriadão-terça, e retomando com trabalho de Filosofia Jurídica e prova de Teoria da Comunicação na quarta, Direito Civil na quinta e Perspectiva Ético-antropológica na sexta. A semana seguinte vai ser uma salada mista geral, porque vou estar em férias em pelo menos 50% das matérias. Tem prova de Semiótica na segunda, a PRIMEIRA prova do semestre de Penal (!!!!!) e sabe-se lá quando vão ser as provas de Francês, e a segunda prova de Direito Penal. Dia 23 é a data em que tecnicamente o Direito entra em férias (o Direito Penal é um mundo à parte :P). Declaro-me em férias na UCPel logo após a prova de Semiótica (dia 21). E as férias do Francês e de Penal são uma verdadeira incógnita... :P
Acresça-se a tudo isso o trabalho de Marketing (para a segunda-feira no meio do "feriado"), as fotos da prova prática de Foto II (acho que podem ser entregues até a semana que vem), e o fato de que ainda não sabemos como vai terminar a novela do Direito Financeiro -- a única matéria que está em greve...

Até que vou ter um novembro bastante agitado :)



terça-feira, 8 de novembro de 2005

  01 02 03 05 06 08 10 11 15 16 17 18 20 21 25 26 28 29 31 34 35 36 37 38 39 41 42 44 45 46

Mais pontos: 23

Menos pontos: 14

Pronto. Se eu não fosse atéia, neste momento eu diria que teria acabado de garantir meu passaporte para o céu.

Eis o resultado final da tele sena de primavera :)

(Ninguém mandou eu usá-la como metáfora num dos posts do blog. Agora metade de quem entra aqui vem em busca dessa bendita combinação de numerozinhos.)

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O analfabetismo virtual existe -- eis uma prova de que as pessoas não sabem utilizar os buscadores na internet:
Vá em www.google.com.br, digite "resultado parcial da telesena de primavera". Em qual resultado você clicaria? :P

As estatísticas confirmam: das últimas 20 pessoas que acessaram meu blog, 2 chegaram aqui ao realizarem essa mesma pesquisa (nos mais diversos buscadores possíveis). Maldita hora em que fui falar sobre telesenas de primavera... :P

Alguém deveria ensinar essas pessoas a usar a internet de forma correta... :) (sei que a escola já faz "muito" em cuidar das crianças e ajudá-las a serem menos burras, mas não seria legal se ela também fornecesse uma espécie de educação para a mídia? :D)...



domingo, 6 de novembro de 2005

  A arte de viajar de ônibus

Acho que tenho um ímã para atrair pessoas que não têm a mínima consideração pelos outros em viagens de ônibus. Na ida para Bagé, atrás de mim havia uma criança irritante (mas feliz) que achou divertido dar socos na poltrona a sua frente. Virei saco de pancadas sem saber :)
Do resto da viagem nem me lembro. Acho que a criança (e sua respectiva família leniente) desceram do ônibus e eu comecei a ler, em paz...
A viagem de volta foi mais interessante. Ao sair de Bagé, fiquei observando o comportamento de um bebê que se encontrava (com sua mãe, é claro) no jogo de poltronas ao lado (e à frente) da minha. É curioso notar o agir de uma criança em seus primeiros dias de vida, com olhos que tudo olham mas que nada vêem. Depois de um certo tempo olhando ao redor com uma cara típica de "Quem sou eu? Onde eu estou?", a menina (estava de suéter rosa... se não for menina, tem uma mãe de muito mal gosto :P) acostumou-se com o ritmo da viagem. Dormiu. Mas ao falhar-lhe o balanço costumeiro, quando o ônibus parou, inadvertidamente, não teve outra escolha senão berrar. Mas em seguida o veículo retomou sua velocidade normal, e a criança pôde descansar feliz. Ainda bem que o ônibus era semi-direto! :) (modalidade máxima do trajeto Pelotas-Bagé-Pelotas).
Na metade do trajeto, embarcou no ônibus um casal que se sentou nas poltronas ao lado, logo atrás. Eles vinham discutindo em voz alta uma suposta tradução de inglês, com um dicionário em mãos. Fiquei num misto entre interromper a conversa e ajudar, ou me irritar por não poder ler. Por fim, acabei me redimindo e aproveitando a oportunidade para apreciar a paisagem da beira da estrada: um lindo pôr-do-sol, digno de cartão postal. Com direito a um sol laranja e gigante, desses que as casinhas da beira da estrada cismam em esconder, mas que é insistente, e não deixa de aparecer a cada esquina, a cada vão, a cada falha na tentativa humana de ocupar todos os espaços sobre a superfície da terra.
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Estou gostando dessas minhas viagens com leitura "temática". Da última vez que fui a Bagé, estava lendo "Viagem na Irrealidade Cotidiana", de Umberto Eco. Desta vez, o livro era "Se um viajante numa noite de inverno", de Italo Calvino. Acho que nem preciso dizer que ambas as obras são umas verdadeiras "viagens"... (no sentido "adolescente rebelde de 12 anos" da palavra...). Sobre o primeiro já falei aqui no blog. Do outro, ainda preciso terminar a leitura (restam cerca de 50 páginas). Mas já adianto que o livro é bem interessante, e nele se sobrepõem diversos trechos de obras fictícias, intercaladas com uma estória de um Leitor (com letra maiúscula) que se perde num emaranhado de leituras -- e que bem que poderia ser o leitor (com letra minúscula) que lê a obra e se perde junto :)



sexta-feira, 4 de novembro de 2005

  No relógio: 6h40

Tenho gostado cada vez mais desses meus dias em que as horas são sempre iguais. A grande vantagem de se ter um relógio que só marca os minutos é poder viver na ilusão de que o tempo simplesmente não passa (o mundo [e o ponteiro] apenas "gira", mas a cada hora retorna, invariavelmente, a seu ponto inicial).



  Feira do livro

A visita à Feira do Livro de Porto Alegre contribuiu para tornar minha lista de leitura ainda mais interminável:
- Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)
- O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (Oliver Sacks)
- Oliver Twist (Charles Dickens) -- meu primeiro Penguin Classics :D
- The Picture of Dorian Gray (toscamente retold para iniciantes em estudos da língua inglesa )
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Nunca tinha visto tanto livro reunido em um único lugar. Fica difícil tomar uma decisão de compra eficaz quando você dispõe de tempo e recursos financeiros limitados e opções as mais variadas :P
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E eu ia escrever sobre a viagem em si, mas não encontrei nada muito interessante para contar.
O ambiente interno da van escolar (dessas com faixa amarela e tudo o mais) estava tão divertido que traduzi-lo em discurso acabaria com o encanto.
Na saída de Pelotas, pegamos um desvio bizarro -- era uma estrada de chão que percorria uma vila onde o tempo parecia ter se esquecido de acontecer, com olarias, velhas chaminés ainda operantes e casebres de madeira. Como o sistema de ar defenestrado da van não era lá muito eficaz, a gente literalmente comeu muita poeira.
De resto, a paisagem era bem... verde (no sentido lato da palavra :P).
E da viagem de volta as lembranças incluem um pôr-do-sol maravilhoso, indizível, e que minha máquina fotográfica (encostada no vidro a 80km/h) foi incapaz de captar em seu total esplendor.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2005

  Matemática simples

Amanhã = Feriado = Porto Alegre = Feira do Livro \o/

P.S.: Entenda amanhã como hoje, mas mais especificamente como um ontem de alguém que ainda não dormiu :P



  Tirinha do Snoopy

Indo em busca de um produto midiático para fazer o trabalho de Semiótica ("aplicar a teoria de Barthes, Eco ou Peirce a um produto midiático qualquer"), acabei caindo sem querer na página de tirinhas em outros idiomas do site dos Peanuts (esqueci o nome do desenho em português... só lembro os personagens... Snoopy, Charlie Brown...). No site, fixei-me na primeira tira apresentada. Era uma cena do Charlie Brown e do Snoopy, numa poltrona. Com o texto em alemão.
Como meu conhecimento do alemão é, literalmente, o de alguém que faz o curso "por correspondência" (no caso, pelo site da Deutsche Welle), encarei durante alguns instantes o primeiro balãozinho, para tentar entender o que o personagem dizia -- ou seja, comecei a aplicar a teoria do Umberto Eco, instintivamente. Ele diz que as coisas só são signos quando alguém as interpreta, colocando todo o peso da semiótica nas costas do intérprete. Então eu estava empenhada em fazer com que aquelas palavras virassem um signo, que elas significassem algo para mim. A primeira grande interpretação que fiz da tirinha foi perceber que se tratava de uma tirinha em alemão. Talvez se eu nunca tivesse tido contato com a língua eu falhasse em perceber o fato -- mas mesmo assim o site me ajudaria a recordar, visto que acima da tira há uma legenda indicando de que idioma se trata :P
Eco também diz que, ao interpretar, a gente faz inferências e abduções. A inferência seria captar o sentido óbvio das coisas, através dos sentidos. Aquilo que salta aos olhos. Já a abdução ocorreria sempre que tivéssemos que decidir por algo diante de uma regra prévia, ou inventar algo de novo. A abdução pode ser supercodificada, quando todos os elementos necessários para a interpretação já estão disponíveis (de cara, ao olhar a tirinha, percebi que o Snoopy estava dormindo no colo de seu dono, e o fato da tirinha ser em alemão não muda em nada essa situação -- supõe-se que, na Alemanha, os cachorros também durmam no colo das pessoas :P). Mas também pode ocorrer uma abdução subcodificada, quando poderíamos entender do que se trata, mas falta-nos o contexto correto -- imagine como se eu estivesse olhando a tirinha pela primeira vez, e não soubesse quem sejam Snoopy e Charlie Brown. Também não soubesse de que contexto a tirinha tinha sido extraída. Se num livro de protesto contra os animais, provavelmente eu poderia aduzir que o mocinho está prestes a estrangular o cão. Pelo fato de o menino estar falando com o rosto virado para a esquerda, poderia também crer tratar-se de um gesto de repúdio ao animal... No entanto, minhas experiências de infância (eu adorava o desenho do Snoopy) acusam que se trata de uma cena de afeto entre um dono e seu cão. Há também a possibilidade de se fazer abdução ex novo, ou seja, quando o intérprete cria, inventa algo a partir do que está diante de si, quando lhe falta o contexto e a regra. Eu poderia inventar uma série de diálogos para o menino e o cão. Como no caso de se a tirinha estivesse numa revista de repúdio aos animais, Charlie Brown poderia dizer: "Cachorros são malvados e merecem morrer", e Snoopy responder "Oh, não, tende piedade de mim!" (considerando-se a hipótese de o cão ser como um daqueles toscos animais antropomorfizados de historinhas infantis bestas). Charlie Brown está com uma cara de preocupado. Poderia também pensar que ele está dizendo "Eu não sei cuidar de cachorros, alguém pode me ajudar?", e o cachorro pensar "Que idiota!"... Enfim, há várias possibilidades :)
Mas há um fato que saltou-me aos olhos em seguida, assim que parti para a leitura dos balõezinhos... A palavra "telefon" encontra-se no meio da frase de Charlie Brown. Telefon deve ser o nosso telefone... (dedução feliz :D). Então há um telefone envolvido na história. E talvez o fato de o personagem estar olhando para a esquerda possa significar que ele está falando com alguém que se encontra fora da cena. Opa.. Dois dados novos: Há um terceiro indivíduo e um telefone envolvidos na história.
E então eu parti para um nível um tanto mais avançado da leitura da tira, e comecei a reconhecer algumas palavras do idioma alemão (minhas aulas virtuais não foram de todo vãs, afinal!)... Charlie Brown fala "ich" (eu) três vezes. Deve haver algo relacionado a ele, que envolva o telefone e o cachorro. Também percebi a presença dos verbos kommen (ir) e schläft (dormir). Antes de telefone há uma negação (nicht). Qualquer que seja o papel do telefone na história, ele está sendo negado. Ora, quem dorme é o cachorro. O verbo ir provavelmente refere-se ao telefone. Ir ao telefone? Ou não ir ao telefone? A negação de repente passou a fazer sentido! -- Não ir ao telefone. E que tal estabelecer uma relação causal com a frase seguinte? Não ir ao telefone porque algo dorme. O cachorro está dormindo, logo, Charlie Brown não quer ir ao telefone porque Snoopy dorme. Uau. Para quem não sabia nada ao ver pela primeira vez o quadrinho, isso já é um grande avanço! :D
Na segunda vez que passei os olhos pela frase, tentei deduzir novos significados de palavras. A primeira palavra da tira, wer, provavelmente, é quem... Sag deve ter algo a ver com o verbo sagen (dizer). Ist é o verbo ser. Quem - ser - dizer... Diga quem é? -- Bom, deixemos essa frase para depois...
Na fala do cão (sim, ele também fala! -- ou melhor, pensa -- o mais legal no personagem do Snoopy é que o tempo todo ele tem consciência de sua condição de cachorro :P), consegui identificar a palavra tag (dia), repetida e separada pela partícula zu. E sua frase termina em reticências, o que demonstra não se tratar de um pensamento acabado (ou, sei lá, Schulz talvez tenha usado o recurso para demonstrar que o cão está em estado hipnótico de sono...).
Voltando novamente ao primeiro balão, notei um verbo novo: kann (poder). Na verdade, a segunda frase (após o ponto) começa com "Ich kann nicht". Eu não posso! O que Charlie Brown não pode? Telefone! Ele não pode telefone. Telefonar? Opa. Mas tem o verbo ir. Ir ao telefone? Ele não pode ir ao telefone!
Enfim, resumo da ópera... quando eu estava talvez prestes a deduzir o significado global da história (para finalmente poder partir de uma abdução subcodificada, à primeira vista, para uma supercodificação futura da tira...).... tchanrãn... Rolei a página e vi que logo abaixo encontrava-se a tradução
Então, o que Charlie Brown dizia era algo como "Quem quer que seja, diga que não posso atender o telefone, porque meu cachorro está dormindo no meu colo, e não quero incomodá-lo". Então, sim... há alguém fora da tirinha. E sim, há uma relação causal entre o telefone e o cachorro!
A fala do cão talvez eu nunca fosse aduzir corretamente... É algo do tipo "A vida fica melhor a cada dia..."
P.S.: A versão da tirinha em português, disponível no site, na mesma página, logo abaixo, diz bem menos que a versão em alemão. Charlie Brown pronuncia apenas: "Diga que não posso atender o telefone porque meu cachorro está dormindo no meu colo!". Observa-se uma considerável redução em termos de significação... Em alemão, o dono do Snoopy se preocupa também em não incomodá-lo... Isso quer dizer que os alemães são mais sociáveis? (Se a é b, e b é c, logo, a é c :D Viva o modus ponens!! \o/)
Ah, mas mesmo sabendo o texto da tirinha... cada um ainda pode interpretá-la a seu jeito. Para mim, o fato de Charlie Brown não querer se levantar demonstra o tanto que ele tem de afeto por seu cão. Eu mesma me reconheceria no papel do menino se o cão em questão fosse a Lia (ou o Snoopy mesmo :P). Mas talvez quem não tenha uma relação tão íntima com cachorros falhe em perceber esse laço... E isso nos leva de volta para a idéia inicial do Umberto Eco, de que tudo o que significa só tem sentido em função de um intérprete...



No fim, depois de toda essa viagem, eu ainda não encontrei um elemento para a análise. Eu e a minha dupla (o trabalho é em dupla :P) ficamos de pensar em algo até sexta-feira. Alguém aí tem alguma dica de algo produzido pela mídia que possa ser analisado? :)

P.S.: Fui parar no site do Snoopy depois de ler o capítulo "O Mundo de Minduim", na obra "Apocalípticos e Integrados", de -- adivinha quem! -- Umberto Eco... =)




terça-feira, 1 de novembro de 2005

  Já é Novembro!

A sensação que tenho é que a primeira metade do ano passou lenta e vagarosamente, enquanto o semestre atual voa como um pássaro. À medida que o tempo avança parece que ele o faz cada vez mais rápido. Talvez seja por conta dessa estúpida idéia que alguém teve um dia de contar o tempo de trás para frente (faltam X dias para tal coisa) ao invés de apreciá-lo na ordem em que aparece (hoje é dia X). Claro que seria complicado deixar de perceber que "faltam só 20 dias para acabar as aulas", mas também posso adotar uma visão um tanto mais otimista e considerar que hoje é a recém dia 1°. Tenho a opção de entrar em desespero por ter uns 10 trabalhos para fazer e entregar nesses próximos 20 dias. Mas tenho também a alternativa de começar a fazê-los, e só se realmente faltar tempo, reclamar. Tenho a opção de me irritar por ter tanta prova marcada para as próximas semanas, mas também posso me redimir e começar a estudar. (Já notaram como a vida é toda feita de escolhas? :P)
É preciso ser otimista. Mas também não preciso ser tão feliz -- como o meu relógio -- ao ponto de dizer que toda hora é 6 horas, e que o tempo simplesmente não passa...
Ainda não sinto necessidade de férias (mas isso não é nada que umas 5 ou 6 provas na corrida não resolvam :P), tenho a sensação de que não aprendi nada de novo nos últimos meses e parece que nunca dá tempo de fazer nada direito (fica tudo pela metade). Paradoxalmente, a disponibilidade de tempo livre tem se apresentado como inversamente proporcional à capacidade de fazer tudo o que se quer/precisa. Queria poder ler mais, estudar mais, dormir mais... E, no entanto, parece que estou presa num mundo bizarro onde todo dia é hoje e toda hora é 6 da tarde. É como se o tempo não avançasse, e, ao mesmo tempo, corresse sem parar.

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