segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

  Produção de significado

É interessante o modo como a mídia (toda, em geral, a televisão, em particular) tenta produzir sentido a partir da justaposição de fatos sem conexão alguma, de modo que, ao mostrarem uma coisa após a outra, a sucessão dos acontecimentos produz um efeito de que se tratam de assuntos relacionados. Às vezes a mídia chega a fazer conexões absurdas. Isso é feito o tempo inteiro nos telejornais. Passa-se de uma manchete a outra sem que a relação entre elas seja estabelecida, de modo que cabe ao espectador, sem subsídio algum, conectar os fatos. Assim, vai-se da reportagem de um macaco no zoológico à cena de um prédio em chamas, ou da vitória de um time azarão em um campeonato importante para um marido que mata a mulher.
Um exemplo de tentativa de conexão explícita de fatos é o que aconteceu na abertura do Jornal Nacional de sábado, que tentava a todo custo fazer ligações mirabolantes entre o menino morto ao ser arrastado do lado de fora do carro e o pai que foi baleado na frente do filho e dos sobrinhos. Exceto pelo fato de que ambos os crimes aconteceram no Rio, e que ambos tiveram como resultado a destruição brutal de famílias, qualquer outra tentativa de conexão pareceria extremamente forçada. Algo como “o pai baleado provavelmente tenha visto o menino ser arrastado, já que morava nos arredores” não parece fugir dos limites do razoável?
Enfim, muitas vezes o objetivo dos jornais é exatamente produzir sentido a partir da justaposição de fatos inicialmente estranhos entre si. O que os jornais muitas vezes (nem sempre) falham em repassar aos telespectadores é algum elo que junte todos os fatos, como dizer que as demissões de uma fábrica e a alta no dólar têm a ver com um recesso que se está tendo na economia, ou, forçando ao máximo, passar aos espectadores a idéia de que todas as notícias ali descritas nada mais são do que um verdadeiro panorama da cultura contemporânea. (Se bem que a cultura, como muitas outras coisas do mundo, só adquire significado dentro de uma perspectiva histórica – é preciso passar algum tempo para que se dê valor ao que era produzido até então.)

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Comentários:

Blogger Gilberto disse:
Este comentário foi removido pelo autor.
 
Blogger Gilberto disse:
Essa desconexão de temas que existe em um telejornal é exatamente uma das principais características de um veículo de massa. Ao bombardear-se os telespectadores com diversas informações, algumas de relevância misturadas com outras sem importância, tem-se uma banalização dos fatos. Isso leva a população a saber pouco de muito. Não podendo esquecer que assim que termina o tele vem a novela, uma paixão nacional, e todas aquelas “notícias” relevantes ou não caiam no esquecimento.

Lamentável...
 
Anonymous tina oiticica harris disse:
Acho que o objetivo da mídia é de derrubar o governo por problemas acima da capacidade de solução que o governo possa dar.

Também acho que as pessoas têm que esfriar a cabeça um pouco. Já vi coisas muito piores no Brasil, o incêndio do circo em Niterói, a Fera da Penha, uma mulher que ateou fogo à filha de seu amante em um terreno baldio, a garotinha tinha cinco anos, Tânia. E vai por aí a fora.
 


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