terça-feira, 16 de janeiro de 2007

  Pérolas midiáticas

A novela das 8 está se superando cada vez mais. Como se não bastasse reunir as piores cenas de filmes de terror em um só capítulo (que foi ao ar na semana passada e continha preciosidades como um relógio com ponteiros girando adoidados, guardanapo pegando fogo sozinho sobre o fogão, o reflexo do fantasma de Nanda vestindo camisolão branco aparecendo para Helena no espelho, vultos que passam correndo, porta-retratos que quebram e desquebram, e músicas que tocam sozinhas), o capítulo de hoje (ou ontem, dependendo da concepção de dia que se adote) trouxe uma entusiasmante aula de Direito de brinde. Na cena, Helena (nome recorrente nas tramas repetitivas de Manoel Carlos) estava à mesa com seu filho adotivo. Os dois conversavam sobre a possibilidade de Helena vir a perder sua filha (também adotiva) Clara na Justiça. Eis as palavras de Helena (numa transcrição não totalmente literal, porque a cena foi vista com desatenção, mas procurando ser fiel à idéia central do que foi dito):

“Não se pode esquecer que o juiz que vai decidir o caso é um homem, ou uma mulher, como todos nós. Ele ouve as partes, mas dá a sua decisão pessoal”.

Arrã. O juiz é completamente arbitrário. Ele pode tudo. Não existe direito, não existe lei. Não sei o que estou fazendo em um curso de Direito.

Em tempo: o juiz dá, sim, a sua decisão. Mas ele não pode decidir de forma totalmente arbitrária, de acordo com suas convicções. Pode-se dizer que a decisão, de certa forma, é discricionária, no sentido de que ela não pode se dar contra a lei – mas, dentro dos limites impostos pela lei, o juiz é livre para decidir como quiser. A motivação da sentença (baseada na lei, e não exclusivamente em critérios subjetivos) é obrigatória. Tanto é assim que a decisão contrária à lei pode ser recorrida (daí se diz que no Brasil vigora o duplo grau de jurisdição).
(Os jurados, por sua vez, podem decidir como bem entenderem. E a decisão deles é vinculante. Mas eles só entram em cena no julgamento de crimes dolosos contra a vida, o que não tem absolutamente nada a ver com o caso em questão.)

Essa pérola é mais uma demonstração do quanto a mídia contribui para emburrecer o cidadão. Nesse caso, felizmente, tratava-se da mídia de entretenimento. Não foi culpa do jornalismo.

(e a fala provavelmente não tenha sido escrita com a conotação que aqui descrevi, mas, enfim...)

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Comentários:

Blogger Fernanda Maia disse:
O que mais me impressiona nisso tudo é que a desinformação chega às telas com uma naturalidade tal, que a gente quase acredita que sejam verdadeiros os fatos narrados. Me ponho a pensar que o país em que vivemos não apenas possui um povo que, em que grande parte, não possui acesso à educação, mas também não possui o respeito à informação bem dada. Os noveleiros de plantão deixaram de lado a arte da atuação melodramática e resolveram descambar para uma área que definitivamente não é deles: a de "informar". É certo que a mídia forma opiniões e cria modelos, mas nunca a novela foi tão traíra consigo própria quanto agora: diálogos moralistas que deixam a beleza da atuação de lado, a essência do enredo, tentando se mostrar politizada e cultural. Pra quê? era tão bom quando nossa única preocupação seria quem matou o mocinho no final, ou se o mocinho ficaria com a mocinha. Hoje vemos realidades nas telas mais chocantes que as nossas próprias. Em vez de entreter, as novelas querem ser a cartilha que nunca tivemos (e nós reles mortais que conseguimos chegar à faculdade somos obrigadas a ouvir baboseiras.)
beijos Gabi!
 


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