quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

  A espetacularização da tragédia

Um fato inusitado, um acontecimento não-programado irrompe na seqüência tradicional do dia-a-dia. Quanto mais esse fato for raro, quanto mais pessoas atingir, quanto maior interesse for capaz de despertar, mais facilmente reunirá as condições necessárias para ser transformado em notícia.

Na tragédia, vários valores-notícia são reunidos. Tem-se a idéia de raridade (expressa pela simplista máxima jornalística que diz que se um cão morde um homem não é notícia, mas se um homem morde um cão, pela improbabilidade do fato, isso se torna notícia), tem-se interesse (o mórbido interesse humano pela tragédia), tem-se imagens impactantes (principalmente para o caso da transmissão televisiva). Pode-se ter ainda a idéia de proximidade (para quando o fato acontece nas imediações do local para onde é noticiado), e até mesmo a quantidade (é diferente quando afeta um ou um milhão) e a qualidade (se acontece com alguma celebridade, algum político, ou com pessoas comuns) das pessoas envolvidas. Basicamente, tudo é valor quando se trata de mensurar a curiosidade humana.

(Por que os conflitos no Iraque não geram tanta comoção? Porque lá é rotina (ou ao menos é assim que a mídia nos faz sentir que seja), e também porque falta proximidade. É tão remoto, é tão distante, e parece ser tão comum, que a sensação que se tem é que foram meras fatalidades sem importância. Morrer no Iraque é banal. Há um jornalista que chegou a sistematizar e quantificar, brincando, o número de mortos necessários para que uma tragédia mereça destaque nos telejornais. O grau de interesse possível era medido não só com base na quantidade de pessoas envolvidas, mas também no tipo de pessoas. Não lembro das exatas medidas (nem do autor da brincadeira), mas seria algo como cinco americanos, dez europeus, cem latino-americanos, quinhentos asiáticos e mil africanos as quantidades mínimas de mortos ou feridos para que o fato recebesse relevância na mídia norte-americana.)

Uma tragédia causa comoção, desperta emoção, o clima de tensão contagia. Mas o que a mídia faz ao noticiá-la vai além. Ela espetaculariza. A tragédia de poucos é transformada em um espetáculo para muitos. É como se a dor dos familiares das vítimas fosse produzida para ser compartilhada com os milhares de espectadores.

Todos vão morrer algum dia. Mas espera-se que seja de uma forma pacífica, planejada, preparada, e não de um modo brusco e sem explicação. A morte trágica inverte a ordem natural das coisas. É insólito, é exceção. A vida sendo abreviada de forma trágica e repentina é um filão comumente explorado pela mídia, porque vende. Principalmente quando a tragédia é próxima.

As tragédias despertam tanta atenção dos espectadores porque, de certa forma, fazem com que as pessoas que escaparam se sintam bem por estarem vivas. Faz com que as pessoas simplesmente se sintam vivas. E esse sentimento só aflora por exceção. A gente só sente que está vivo quando alguém nos chama a atenção para esse fato. Viver é como respirar: a gente faz, mas nem sempre tem consciência disso.

O pensamento mais comum que se tem diante de uma tragédia é que se poderia estar ali. Mas não foi a nossa vez. Foi a vez daquele infortunado que estava na hora errada no lugar errado, daquele que teve azar de estar envolvido. E o azarado é usado como exemplo, como um infortunado exemplo de que a fatalidade acontece, de que a vida é curta, de que nossa existência é sutil.

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* Reflexões desencontradas surgidas a partir da excessiva cobertura televisiva sobre a tragédia do metrô de São Paulo. Nesse caso, além de espetacularização, há também o gerundismo (o fato é mostrado enquanto está acontecendo).

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Comentários:

Blogger Fernanda Maia disse:
Isso de proximidade é algo que já li uma vez, se não me engano no observatório da imprensa, da capacidade que a mídia (principalmente televisiva) tem de fazer próximo algo longe e infinitamente longínquo (quase impossível de se chegar) algo aqui do lado, de estreitar os caminhos entre Estados Unidos e Oriente Médio (muitos devem pensar:'um fica do lado do outro, pra dar pra atacar assim todos os dias, do jeito que a TV mostra'..), e de repente a Amazônia se encontra em Manaus, essa tal Amazônia enorme que tanto falam (mal sabem que se trata de mais da metade do territorio nacional). E ela (a mídia) faz isso com maestria. Não se preocupa, em momento algum, em colocar mapas ilustrando de forma clara de qual região vem a notícia, onde se encontra.. não há uma noção geográfica, espacial, como se nós, meros expectadores, não precisássemos saber de onde vem e pra onde vai o que...tudo é muito confuso em nossas mentes (e é melhor que assim continue).
Bom, quanto à tragédia, você trouxe à luz a face mais obscura da mídia em manipular a tragédia, complementou meu 'Elogio' que vê a coisa mais filosófica ;)
bjão
 
Anonymous Gabriela disse:
É mesmo. Tem o seu "Elogio da Tragédia". (Aliás, recomendo a leitura do texto no blog da Fernanda para quem ainda não leu e que porventura esteja vendo estes comentários :P)

A mídia traz a ilusão da ubiqüidade - ela nos imprime a idéia de que se pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento.
 
Blogger Lynz disse:
Muy buena reflexión. Me ha gustado. Expresa muy bien ese poder de manipulación que tienen los medios.

La parte que más me ha gustado ha sido el último párrafo, ya que en él te das cuenta de lo frágil que es nuestra vida:
O pensamento mais comum que se tem diante de uma tragédia é que se poderia estar ali. Mas não foi a nossa vez. Foi a vez daquele infortunado que estava na hora errada no lugar errado, daquele que teve azar de estar envolvido. E o azarado é usado como exemplo, como um infortunado exemplo de que a fatalidade acontece, de que a vida é curta, de que nossa existência é sutil.

Enhorabuena por tan buena reflexión :)
 


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