sábado, 22 de julho de 2006

  Julgamento teatralizado

Acho um absurdo essa cobertura massiva que a mídia tem dado ao julgamento do caso Richthofen. Admito que se trata de um caso que abalou o país quando aconteceu (afinal, um filho matar os pais é operar uma verdadeira inversão no papel de submissão que aquele geralmente deve exercer em relação a estes), e que uma certa repercussão já era de se esperar. Mas o tanto que a mídia tem falado sobre o caso nos últimos dias (sem mencionar o quanto falou no lapso de tempo entre o assassinato e o julgamento) já tem extrapolado os limites do razoável!
Gente rica não costuma matar os pais. Isso talvez explique o intenso interesse em cima do caso quando ocorreu. E talvez justifique também a necessidade de que a mídia mostre o que aconteceu com os culpados após o crime. Há uma máxima jornalística que diz que quando um cachorro morde um homem, isso não é notícia (a menos que o cão seja um Pitbull e a mordida seja suficiente para arrancar o braço ou a perna do sujeito, mas isso não vem ao caso... se bem que até isso já tem virado rotina nos tempos em que a gente vive...); entretanto, quando um homem morde um cachorro, pelo inusitado da situação, isso é notícia. Talvez o caso não teria tantos holofotes apontados em sua direção, não fosse esta uma família rica e tradicional, não fosse fútil o motivo do crime, não tivessem os assassinos um relacionamento tão próximo com suas vítimas...
Entretanto, o excesso de cobertura beira o voyeurismo. Já se sabe quase tudo sobre a vida de Suzane. O que o Fantástico não mostrou, os outros programas, canais e veículos se encarregaram de tornar explícito. Até mesmo o Julgamento está sendo transmitido de forma escancarada.Uma nova forma de Jornalismo está sendo inaugurada: o gerundismo. Ao invés de esperar pelo desfecho do acontecimento, a cobertura acontece em tempo real. Ela cobre o fato acontecendo. Assim, os repórteres, embora não possam entrar no local de Julgamento, transmitem ao vivo da fachada do fórum informações atualizadas sobre o andamento do processo. Chegou-se ao cúmulo de um jornal televisivo (SBT, 21/07/06) exibir uma animação em 3D tentando mostrar mais ou menos o lugar que cada um dos envolvidos supostamente ocupa na Sala de Julgamento.
Não pude evitar de relacionar o modo pelo qual a mídia está cobrindo o caso com a história do livro que estou lendo, "O Processo" de Franz Kafka. No livro, o personagem K. está sendo processado, e o processo se arrasta por um grande espaço de tempo. Tanto no livro, quanto na cobertura midiática kafkanina do caso Richthofen, a ênfase é dada ao processo, ao julgamento em si, e não ao resultado. Pouco importa o resultado finalístico do crime que está sendo julgado (a morte do casal), pouco importa se Suzane vai ser condenada ou não. O que todo mundo parece querer saber no momento (ou “o que a mídia parece estar querendo forçar as pessoas a querer saber”, como preferir) é como está sendo o Julgamento: se ela se defendeu, se ela chorou ou não, o que disse o policial que chegou primeiro ao local do crime em seu depoimento. A diferença do livro em relação ao caso televisivo da vida real, é que no livro, K. a princípio nem ao menos sabe porque está sendo processado. Mas isso não o impede de se deixar levar pelo processo, ao ponto de às vezes até mesmo se esquecer o absurdo da situação em que está envolvido. A ênfase nos ritos do Judiciário é tanta que o motivo que o levou a ser detido acaba ficando em um segundo plano. Ele se defende, mesmo sem saber por que é acusado. No caso da vida real, todo mundo (todos os brasileiros) sabe bem o motivo que levou Suzane e os irmãos Cravinhos ao julgamento teatral em que estão envolvidos. Mas se esquece, deixa-se levar pela mídia.
Com essa transformação do fato em algo que está acontecendo, talvez a mídia esteja colaborando para que as pessoas se esqueçam que isso tudo é um crime real, que envolve pessoas reais. Será que o papel da mídia não deveria se resumir a mostrar o resultado do fato (“Suzane foi condenada”, “Suzane foi absolvida”, “Suzane foi abduzida por seres verdinhos que se acredita serem oriundos de Marte”, sei lá, minha vida não vai mudar com ou sem esse veredicto), e não o andamento da situação? Não bastasse o fato de a morte do casal ter abalado a vida da família, a cobertura midiática pode estar destruindo o que sobrou de dignidade na vida dessas pessoas...
Enfim, tudo isso é para dizer que o julgamento (finalmente) está terminando nesta madrugada, e Suzane e os irmãos Cravinhos foram condenados -- neste momento, são quase 2 horas da manhã, e ainda não definiram as penas -- Será que precisavam ter feito toda essa verdadeira “enrolação midiática", se esta é a única informação que realmente importa?

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Comentários:

Blogger Sagá disse:
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
 
Blogger Sagá disse:
Nossa, Gabriela, adorei seu texto!
Lembro quando estavam noticiando início do primeiro julgamento -aquele que deveria ter sido mas não foi!- e um advogado no Jornal Nacional dizia ser um MARCO na história da advocacia brasileira! Olhei pro meu pai e disse: eu que sou muito leiga, as pessoas que estão ficando retardadas, esse advogadozinho que quer confete ou tudo isso é pura balela mesmo?!
Cara, TODA ESSA REPERCUSSÃO INFINDÁVEL FOI PURA BALELA. Tanta coisa mais importante pra ser noticiada... Mas sim, vai ver o advogado estava certo, realmente foi um marco, um marco até com direito à encenação do Nacif! Que coisa linda. E qto ao Kafka, o final do livro é a melhor parte. Eu daria este livro pra Suzane pra ver se ela se inspira e segue o exemplo da personagem de O Processo.

Beijos!
 
Blogger w1zard disse:
tbm adorei o texto.. mas não tenho nada muito inteligente à comentar.

não acompanhei mto o caso, quase não assisto TV e só fiquei sabendo da condenação pelo seu blog.

afinal, concordo com vc.. isso não muda minha vida.

bem, se meus pais ganharem na mega e se tornarem milionários, dae pode ser que tenha alguma influência na minha vida.. ou não.
 
Anonymous Fernanda Maia disse:
Já pensei em escrever uma crônica de título "Elogio da Tragédia", e agora que li este seu post, me inspirei :)
Prometo que escrevo; você promete que vai lá ler o lado filosófico e existencial de seu relato jornalístico? Fazemos uma boa dupla!
 


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