segunda-feira, 23 de julho de 2007

  A relatividade da história

ou... “tome cuidado com o que você diz por aí”.

O general Maximiliano Hernández Martínez teria afirmado uma certa vez que “É um crime maior matar uma formiga que um homem, porque o homem reencarna, ao passo que a formiga morre definitivamente”. A frase pode ser perfeitamente lógica, mas seu conteúdo é um absurdo. Para entendê-la melhor, é preciso analisar o contexto histórico em que foi proferida (e também o que passava pela cabeça do maluco que disse isso).

Martínez foi ditador de El Salvador no período entre 1931 e 1944. Seu governo foi marcado por atitudes sangüinárias de extermínio, em especial relacionadas ao racismo (índios, negros e palestinos). Argumentar que o homem reencarna certamente é um bom caminho para justificar uma mortandade massiva. Mas, apesar de sacrificar vidas humanas, o general respeitava um monte a natureza e os outros animais. Martínez era um teósofo. A Teosofia é uma espécie de saber que procura estabelecer uma relação entre Filosofia, Religião e Ciência. Segundo o site da Sociedade Teosófica do Brasil, a teosofia não é nem um credo, nem uma religião – embora tenha servido como embasamento para a criação de algumas correntes, como os movimentos Wicca e New Age. A partir disso, também é possível entender outra pérola proferida pelo ditador, “É bom que as crianças andem descalças. Assim recebem melhor os eflúvios benéficos do planeta, as vibrações da terra. As plantas e os animais não usam sapatos”, em resposta a uma oferta de doação de sapatos a alunos carentes de escolas públicas em seu país.

Também não dá para se basear apenas nisso e achar que o cara era completamente maluco. Afinal, ele também disse que não acreditava na história, porque “A história é feita pelos homens e cada homem tem sua paixão favorável ou desfavorável”.

A frase das formigas é citada no livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Galeano se refere a Martínez como “un brujo vegetariano y teósofo”, e enumera algumas outras de suas maluquices, como o costume de enviar notas de condolências aos pais de suas vítimas, ou o relógio de pêndulo que usava para sinalizar se sua comida estava ou não envenenada.

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Comentários:

Anonymous tina oiticica harris disse:
Depois sou eu quem é maluco u-u. Já tinha ouvido falar em teosofia mas não fazia idéia. Minha amiga era muito vaga.

As pessoas buscam respostas para pensar que vão viver eternamente de uma maneira ou de outra. Melhor é viver aqui e agora.
 
Blogger Fernanda Maia de Arruda disse:
Este post me lembrou muito as páginas 29 e 30 de "O Gene Egoísta" (que resolvi ler depois do meme :D). Dawkins, falando sobre a "confusão na ética humana com relação ao nível no qual o altruísmo é desejável - família, nação, raça, espécie ou todas as coisas vivas" expõe de uma maneira assustadora e magnifíca que a nossa espécie não é caridosa nem altruísta, mas sim indesejavelmente egoísta e mesquinha. A moral à qual fomos impelidos a acreditar nos força a ser aquilo que não somos, pois no fundo (nem tão fundo...) nos preocupamos apenas com a nossa sobreviência e a dos nossos descendentes.
"De fato, matamos membros de outras espécies inofensivas como meio de recreação e diversão. Um feto humano, não possuindo mais sentimento humano do que uma ameba, goza de respeito e proteção legal muito maiores que um chimpanzé adulto - que sente, pensa, e segundo evidências, talvez seja capaz de aprender uma forma de linguagem humana" (...)
É de se pensar: toda e qualquer coisa vida merece cuidado incondicional tal qual o ser humano? Ou somos superiores a tudo isso que nos rodeia e nossa vida deve sobrepor-se a todo o resto?
Uma questão ética e moral.

Viver aqui e agora muitas vezes é sinônimo de viver inconsequentemente, como se seus atos não fossem produzir efeitos num futuro longínquo. Como acredito em causa-efeito e reencarnação, dispenso comentários sobre esse cara ter sido sim, simplesmente um psicopata desprovido de qualquer tipo de decência humana.
 
Blogger Comentarista Abalizado disse:
Ao menos o maluco usava boas justificativas, construía bem as idéias e usava seus pensamentos para convencer alguns, ludibriar outros...

Os falsários brasileiros, ao contrário, são incapazes de criar boas desculpas e quando inventam algo, logo são desmascarados.

Já o tal Martínez não tinha como ser desmascarado, pois o que ele fazia era expor um ponto de vista, ou seja, mesmo que gere debates, não há muitas formas de se contrapor objetivamente.

El Salvador estava nas mãos de um louco articulado... nós, nas mãos de articuladores que nem mentir sabem.

Belo texto!
 


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