domingo, 11 de fevereiro de 2007

  Meu primeiro Almodóvar

O primeiro Almodóvar a gente nunca esquece. Além de “Volver” ter sido o primeiro filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar que assisti, foi também a primeira vez que fui ao cinema de Bagé. Duas experiências singulares, portanto. Descreverei ambas, em separado. Primeiro, o cinema, depois, o filme:

O cinema

Sempre tive curiosidade em ir conhecer o cinema de Bagé, mas sempre me faltava a oportunidade. O Cine Via Sete é relativamente recente (algo como dois ou três anos) – antes disso, a cidade ficou um longo período sem cinemas. Apesar de ser recente, o cinema está localizado onde há muito tempo atrás havia outro cinema.
Basicamente, sintetizando a saga dos cinemas de Bagé ao máximo, no final da década de 90 e início dos anos 2000, a cidade tinha três cinemas. Mas, num curtíssimo período de tempo, um pegou fogo, outro foi transformado em bingo (no local onde hoje novamente funciona o cinema) e o terceiro virou igreja universal (aliás, destino de todos os prédios grandes da cidade). E Bagé ficou sem cinema.
Várias empresas fizeram planos de abrir um cinema novo na cidade, mas o grande problema era a falta de público em potencial. O problema foi resolvido com o Cine Via Sete.
Em termos de infra-estrutura, a única sala do único cinema de Bagé é melhor que as cinco salas de cinema de Pelotas somadas. A comparação com os cinemas de Pelotas é inevitável, no sentido de que costumo freqüentá-los quase que uma vez por semana. Em comparação, Bagé tem poltronas melhores, ar melhor, maior limpeza, atendimento mais personalizado e sala mais moderna. Entretanto, Pelotas ainda ganha no preço para estudantes – pois permite que se pague meia entrada em todos os dias da semana – e na variedade de filmes.
Para começar, é preciso ter ingresso para entrar nas instalações físicas do cinema bajeense. Do contrário, não é sequer possível ter acesso à área para a compra da pipoca, por exemplo. Com um ingresso na mão, sobem-se as escadas e chega-se a uma espécie de barzinho, com mesas e um balcão, onde se pode comprar pipoca, refrigerante, entre outras coisas. Mas só é possível subir com o ingresso cerca de dez minutos após o final da sessão anterior – entre um filme e outro, o pessoal da limpeza é acionado, para deixar a sala impecável para a transmissão seguinte. A limpeza é tão maniaticamente feita que a sala chega a cheirar a desinfetante – daqueles que se usa para limpar banheiro de ônibus -, o que me causou uma péssima má impressão inicial ao entrar na sala, mas logo desfeita assim que me acomodei em uma das confortabilíssimas poltronas (assunto que será retomado logo adiante).
Antes, cabe falar do que acontece antes do começo do filme quando já se está na sala de projeção. Assim como no ônibus Bagé-Pelotas, que a gente paga para circular por meia hora ainda dentro da cidade, no cinema a gente paga para assistir comerciais de empresas locais, incluindo o informativo semanal da prefeitura da cidade. Os malditos moradores locais sabiam que havia comerciais antes da exibição, e já chegaram 15 minutos depois da hora marcada para o começo do filme. Mas tudo bem, esse é o tipo de coisa que só se aprende após ter ido pelo menos uma única vez no cinema. Da próxima vez já sei que posso chegar mais tarde – ou na hora, caso eu queria me informar acerca das ações do governo municipal.
Após os comerciais, são exibidos os trailers. Mas como o cinema é todo personalizado e feliz, ao invés de serem exibidos trailers aleatórios, eles optam por projetar, a partir de um dvd, apenas os trailers de filmes que serão exibidos no Cine Via Sete nas semanas seguintes. A medida é interessante porque nos poupa o trabalho de criar a expectativa de ver um filme que não irá passar no cinema local.
Os filmes costumam demorar para entrar em cartaz aqui, e quando chegam, mesmo atrasados, se caem no gosto do público, permanecem em cartaz indefinidamente, o que faz com que muitos outros filmes deixem de serem exibidos porque ficarão velhos com o tempo.
No final de 2005 e início de 2006, chegou a passar Oliver Twist por duas semanas. Harry Potter ficou em cartaz por mais de mês. As Crônicas de Nárnia também. Imagino quantos filmes mais apropriados para um público, digamos, mais “adulto”, deixaram de serem exibidos no período.
Mas, voltando à ida ao cinema de ontem, antes do começo do filme (ou melhor, antes do começo dos comerciais que antecedem o filme), há música ambiente na sala de cinema. O tempo todo era música nacional instrumental. Muito bacana. Associado às confortáveis poltronas, daria até mesmo para dormir naquela sala.
As poltronas são um caso a parte. O encosto é bastante alto, o que torna o assento muito confortável. O único inconveniente é que as pessoas baixinhas, como eu, precisam desviar o olhar das poltronas à frente. Mas parece que o pessoal do cinema já pensou nisso por nós, pois a tela fica lá no alto, quase grudada no teto da sala de projeção, de modo que basta olhar para cima para enxergá-la sem se preocupar com o encosto do banco da frente.
Além de confortáveis, as poltronas também possuem porta-copos, o que é bastante prático para apoiar não só as bebidas, como também pipocas ou doces. Na prática, a opção é pouco relevante, pois as pessoas em geral costumam ser civilizadas e evitam comer dentro da sala do cinema – deve ser por isso que existem as mesinhas do lado de fora. Em Pelotas, principalmente no cinema Capitólio, é preciso desviar dos arremessos de pipoca de criaturas felizes sem nada melhor para fazer que vão ao cinema apenas para incomodar os demais.
Em suma, o cinema é bom. Gostei tanto da experiência que pretendo ver mais filmes na cidade, nem que para isso eu tenha que deixar de ver os filmes em Pelotas – visto que é preciso esperar um pouco mais que nos cinemas convencionais para poder assistir aos grandes sucessos de bilheteria em Bagé.


O filme

Volver é um filme divertido, sério, trágico, dramático e emocionante, tudo ao mesmo tempo e na medida certa. Foi o filme indicado pela Espanha para concorrer ao Oscar, mas, por algum motivo qualquer, não entrou para a lista dos cinco indicados para filme estrangeiro. Em compensação, Penélope Cruz recebeu uma justa indicação ao Oscar de melhor atriz – embora na prática tenha poucas chances de levar a estatueta, pois enfrentará concorrentes de peso.
A trama de Volver, como em todo Almodóvar, envolve personagens femininas fortes, uma mãe, uma filha, uma irmã, uma avó e uma amiga tão intensas que chegam praticamente a anular qualquer atuação masculina do filme.
O enredo básico envolve uma filha que mata o (suposto) pai que tentava molestá-la sexualmente, e uma mãe (Raimunda, em excelente atuação de Penélope Cruz) que tenta acobertar o ato da filha, escondendo o corpo do marido em um freezer e inventando desculpas absurdas para que ninguém perceba que ele tenha morrido. No mesmo dia, morre também uma tia de Raimunda (Paula), mas, mesmo gostando muito dessa tia, ela deixa que somente sua irmã (Sole) vá ao funeral, em outra cidade, pois tem que dar um jeito de se livrar do corpo do marido.
A ida ao velório da tia é apenas o começo para que um passado cheio de intrigas e fatos mal-resolvidos possa ser desvendado. A começar pelo aparecimento do fantasma da mãe de Raimunda e Sole, que muitos afirmam ter ressurgido para cuidar de sua irmã Paula enquanto esta estava em seus últimos dias de vida.
Além da trama mirabolante, a parte visual do filme também é riquíssima. Há tomadas feitas em ângulos diferenciados, como a que mostra a movimentação no velório de Paula a partir de imagens captadas do alto. A imagem do guardanapo de papel enxugando o sangue do pai também é interessante (assim como a idéia toda de Raimunda de secar o sangue do marido com toalhas de papel). Já a cena em que Raimunda tenta colocar o corpo – pesado e inerte – do marido no freezer horizontal de um restaurante parece tão real que é capaz de causar um certo desconforto. Na fotografia, predomina uma explosão de cores intensas e vibrantes, aliadas a um tom escuro característico na iluminação (o que também ocorre em filmes brasileiros).
O nome do filme se refere ao título da canção homônima de Carlos Gardel, com letra de Alfredo Le Pera. “Volver” é cantada no filme pela personagem de Raimunda.

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Comentários:

Blogger Gilberto disse:
Bom, eu como pipoca no cinema e me considero civilizado :P Gostei da idéia das poltronas com porta copos.

Não li a postagem até o fim pq ainda não vi o filme e provavelmente, pelo tamanho dos teus textos, pode estar maior que o roteiro :P
 
Anonymous Carol Souza disse:
Cinema melhor que o de Pelotas? Nao duvido.

E isso é bem triste.

Sobre Volver, dispensa comentarios.
 
Anonymous tina oiticica harris disse:
Não me lembro de nada do primeiro, exceto que era frenético, Mulheres à beira de um ataque de nervos.

Vi três vezes e veria novamente o Hable con ella. Magnífico e profundo.
 


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