segunda-feira, 25 de setembro de 2006

  Antígona (ou Direitos Humanos, parte 2)

Antígona – E tu, irmã, se isso te apraz, és livre para ficar com os vivos, desonrar os mortos e desprezar as leis divinas.
Ismênia – Não! Não as desprezo. Só não me acho forte o bastante para desobedecer as leis da cidade” (“Édipo Rei. Antígona”, Sófocles, Martin Claret, págs. 85 e 86)

A tragédia de Antígona tem muito a ver com a luta pelos direitos humanos. A jovem perde a vida lutando para que seu irmão tivesse direito a uma sepultura, mesmo que isso contrariasse a vontade do rei.

Antígona, Ismênia, Etéocles e Polinices são filhos de Édipo (aquele do complexo) e Jocasta. A história de Édipo é importante para entender a de Antígona. Na versão contada por Sófocles (496 a 406 a.c., um dos grandes expoentes da tragédia grega), Édipo torna-se rei após matar o rei anterior, Laio (que era seu pai, mas ele não sabia disso). O assassinato ocorre logo após Édipo descobrir o enigma da Esfinge (“Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia, e três à noite? Pare o mouse aqui em cima para saber a resposta :P) e eliminá-la. Por conta disso, ele é cultuado como herói e assume o lugar do rei que foi morto por ele (mas ninguém sabia quem tinha sido o assassino, Édipo também ignorava que tivesse matado o pai/rei). Então, Édipo, sem saber, casou com sua mãe, e com ela teve quatro filhos (que poderiam ser também seus irmãos; a mãe era ao mesmo tempo avó dos seus filhos!). Quando ele fica sabendo dessa confusão toda, decide furar seus olhos, e Jocasta se mata. É mais ou menos por aí que termina a história narrada em “Édipo Rei”.

Mas, de certa forma, parece que a estirpe toda estava condenada a sofrer com a infelicidade. Os filhos homens de Édipo, Etéocles e Polinices, se envolvem em um confronto, lutando em lados opostos, e por fim um mata o outro ao mesmo tempo usando lanças. Com o desaparecimento (ou morte) de Édipo e de seus dois filhos homens, o próximo na linha para assumir o trono é Creonte, irmão de Jocasta. Creonte torna-se rei, e um de seus primeiros editos proíbe que Polinices tenha direito a uma sepultura. Antígona, irmã dos dois rapazes, filha de Édipo e sobrinha de Creonte (que história confusa!) se revolta contra isso, e decide defender o direito de o irmão ser enterrado. Para ela, a lei divina estaria acima da lei do homem. Creonte, que apesar de rei era tio de Antígona, não perdoa a sobrinha e condena-a por violar a ordem real.

Embora os direitos humanos não sejam propriamente “leis divinas”, eles estariam acima da vontade de um soberano. Ao defender o direito de o irmão ter uma sepultura, Antígona estava defendendo o direito de um homem de ser enterrado, apesar da existência de uma lei real em sentido contrário. Ela estava afirmando a existência de direitos essenciais, que estariam acima de qualquer ordenamento jurídico, direitos esses que deveriam ser respeitados independente do que dissesse qualquer soberano, independente da vontade de qualquer rei. Exceto pela origem divina, é mais ou menos esse o fundamento que hoje se aplica aos direitos humanos. A natureza humana se sobrepõe às criações culturais que dela derivam, e alguns direitos básicos precisam ser assegurados mesmo a despeito do que manda a lei (embora seja preferível que esses direitos mínimos a serem protegidos estejam sempre postivados/previstos em lei).

Bom, e o final da história? Antígona era noiva (e prima) de Hêmon, filho de Creonte. Hêmon tenta fazer o pai mudar de idéia, mas alega que o faz não porque Antígona é sua noiva, mas porque acha realmente injusto o que ele está fazendo com a memória de seu primo. Além disso, toda a população está do lado de Antígona. O rei não dá ouvidos ao filho nem ao povo (“E caberá ao povo impor-me as leis que devo promulgar?”), manda que Antígona seja presa numa caverna para morrer por lá, e mantém a proibição de que Polinices seja enterrado. Mais tarde, porém, um sábio adivinho cego o aconselha a revogar a ordem (“Para que matar, pela segunda vez, a quem já não vive?”) e salvar Antígona, pois, do contrário coisas terríveis lhe aconteceriam. Creonte, assustado, decide mudar de idéia, mas já era tarde demais. Não só Antígona já tinha morrido, como também Hêmon, filho do rei, se mata ao ver que sua noiva está morta, e Eurídice, esposa de Creonte, também se mata ao saber que seu filho morreu. Tragédia completa, portanto. De toda a família, só sobra Ismênia.




Isso se chama expiação de culpa: eu tinha que ter lido Antígona para a aula de Direitos Humanos que não assisti quando fui para Brasília (na véspera do feriado de independência). Como eu não ia assistir à aula, não li o livro na data certa. Mas depois bateu um sentimento de culpa básico, e resolvi pegá-lo na biblioteca (da outra faculdade, mas isso não vem ao caso) para dar uma olhada. A edição que loquei (verbo bizarro; é assim mesmo que se diz?) é de bolso, da Martin Claret, e vem com a história de Édipo Rei junto, além de uma penca de apêndices e explicações adicionais. Vale a pena. A história é muito interessante :) Pena que não li antes... E pena que perdi a aula de discussões sobre a leitura!

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Comentários:

Anonymous tina oiticiica disse:
É curioso que estava contando a estorinha do Édipo Rei para o meu filho pra explicar o complexo de Édipo. Quem me explicou tudo isso foi o Monteiro Lobato.

Foi excelente revisitar a estória e aprender o resto, Antígona, lembro-me muito vagamente de Creonte, cretino, associção de palavras.

Os gregos fizeram tantas cisas fantásticas e na França só lhes é creditada a pederastia, palavra grega, por sinal. :P
 
Anonymous Antonino disse:
Excelente texto. Há algumas semanas resenhei "Antígona" no meu blog e acho impressionante a sua atualidade, mesmo sendo um escrito tão antigo. Inclusive, há alguns meses, uns três professores da minha especialização falaram desta obra e fizeram este paralelo com os Direitos Humanos. Acho esta singularidade algo fantástico. Saudações!
 


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