sexta-feira, 7 de julho de 2006

  Três telefonemas

– Você tem direito a três telefonemas.
– Como três? Não era só um?
– Isto aqui não é um filme americano. Se reclamar, perde o direito.
– Ei cara, não esquenta. Só deixa eu pensar um pouco.

Hm, vejamos. Minha mãe, definitivamente. Ela vai ficar preocupada se eu não aparecer em casa até as nove. Meu chefe. Se bem que... qual o sentido de ligar para o chefe? Ele vai perceber que algo aconteceu comigo quando eu não aparecer para o trabalho amanhã. E também ia ser meio idiota; “Alô, chefe, tô ligando para dizer que não vou aparecer no trabalho amanhã porque fui preso”. Patético. Além do mais, provavelmente alguém lá do serviço vai ficar sabendo e se encarregará de espalhar a ‘boa nova’. Serei alvo das piadinhas e fofocas do escritório por pelo menos uma semana. Depois disso vão até esquecer que eu existo, ainda bem que a memória humana não é lá essas coisas. Ahh. Maldita hora em que fui concordar em participar do assalto...
Ah, droga. Preciso ligar também para um advogado. Dizem que é para isso que permitem fazer uma ligação. Ou melhor, três. Isso é novidade para mim. Se bem que nunca fui preso antes para saber... Mas sempre achei que fosse só uma. Daí era só ligar para minha mãe, e pronto. Ter opções nem sempre é uma boa saída. Eu sempre odiava as questões de múltipla escolha em provas da escola. Principalmente quando uma das alternativas era a tal de n.d.a. E o pior é que não sei o número de nenhum advogado. Será que minha mãe sabe de algo? Se ela souber, ainda me sobra um telefonema.
Tem também a Odete e a Elisete. Por que fui inventar de sair com as duas ao mesmo tempo? Não avisar uma fica chato. Avisar as duas é impossível – só se eu abrir mão do advogado. E se eu pedisse para minha mãe avisar as duas? Ela ia achar estranho, mas.. não! A situação seria ridícula!
E se minha mãe ligasse para o advogado? Até que faz sentido. E ainda me sobrariam 2 telefonemas, o que me permitiria falar com a Odete E a Elisete. É isso, perfeito.


– Ei, amigo!
– Quem, eu?
– Não, o terceiro cara de vermelho à esquerda na cena do shopping center no filme Esqueceram de Mim 2. É, você sim. Só estamos nós dois aqui. Estou pronto para fazer os telefonemas.
– Certo. Anote os 3 números neste papel antes de ligar, para termos um registro. Vou levá-lo até o telefone. Você tem um minuto para cada ligação.

Putz. Um minuto é muito pouco.


O cara disca o primeiro número e passa o telefone para o presidiário:
“Tu... tu... tu... tu... Beep. Você ligou para a casa do Marcão”

Nãão. Minha mãe não está em casa. Pensa rápido, Marcos. Recado na secretária?


“Beep”.

– Ahm. Er- Mãe, tudo bom? Aqui sou eu, o Marcão, teu filho. Ta, tu deve saber disso. Ou ao menos desconfia, já que não é qualquer um por aí que sai te chamando de mãe. Uma das vantagens de se ser filho único é ter o monopólio de chamar uma determinada pessoa de mãe. Enfim, chega de sentimentalismo barato, não é verdade? Olha só, não tenho tempo para dar muitos detalhes, mas, lembra daquele cara que apareceu aí em casa ontem de noite? Pois é, isso vai até parecer que é piada, mas não é. Ele me meteu numa enrascada. Vou precisar da tua ajuda. É caso de vida ou morte! Se tu não fizer o que estou te pedindo posso não sair vivo daqui. E não estou exagerando! Faz o seguinte, p- [cai a ligação].

Já? Droga. Droga! Ah, a Odete que me perdoe, mas sempre preferi a Elisete mesmo...


- Liga de novo para esse primeiro número, faz favor.

“Tu... tu.... tu... tu... Desculpe, a fita desta secretária eletrônica está cheia. Tente novamente mais tarde”.

Não!!! E agora? O que eu faço? O que minha mãe vai pensar de mim? Será que eu disse o suficiente na primeira mensagem?


– Ahm, por obséquio, amigo, se o número estiver ocupado, eu posso repetir a ligação?
– Óbvio que não. É por isso que são dadas três oportunidades.
– Ah, entendi.

Pior é que faz sentido.
Último telefonema. O que eu faço? Tento ligar para casa e rezar para que alguém tenha chegado? – Pouco provável. Ligo para a Odete? Elisete? Ligo para o meu chefe? Para o Coelho? – Ele poderia avisar minha mãe, a Elisabete E a Odete. Mas não, ele avisaria o chefe também, e de quebra toda a repartição, porque o cara é fofoqueiro demais. E agora, o que eu faço? Um advogado seria uma boa – ele poderia servir para contatar todo mundo por mim. O problema é que não sei o número de nenhum. Aliás, nunca precisei dos serviços de um. E quando a gente precisa de um serviço, mas não tem um número... Já sei!


– Amigo. Esquece os números que estão aí na lista. Liga aí para o 102.

Após a discagem...

– Alô, telefonista? Eu preciso falar com um advogado...





* legenda das onomatopéias:
Beep = sinal sonoro genérico para iniciar a fala.
Tu... tu... tu... tu... = barulho de telefone chamando (cada “tu” = um toque). Se o telefone estivesse ocupado, o ruído a ser ouvido seria “tu tu tu tu tu tu”, sem intervalos ou interrupções. E, sim, são quatro porque a secretária eletrônica imaginária atende antes do quinto toque :)



Comentários:

Blogger w1zard disse:
lol.. mto boa. e de quebra o custo da ligação para o 102 fica para a delegacia. afinal, a tarifa desse serviço não é lá tão econômica.
 
Blogger Edison disse:
Seria a telefonista capaz de atender o pedido nos segundos restantes?
Estaria ele conversando com uma máquina que passaria o número do advogado e em seguida desligaria em sua cara?

Realmente, opções demais são um problema.
 


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