quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

  Tadeu, o tamanduá

      Tadeu era um rapazote desengonçado. Ele tinha um corpo alongado, porém seus braços e pernas eram muito curtos, e contrastavam com o esquisito lombo gordo e esticado. Seus olhos eram cor-de-mel, e brilhavam sem cessar. Sua pele era de um tom incerto, entre o terra e o acizentado. Já não tinha mais dentes, e sua boca era grande e afunilada. Tadeu era um tamanduá, embora quase sempre lhe faltasse consciência disso.
      Às vezes Tadeu acordava, via o sol brilhando lá no alto, e pensava que ele mesmo fosse sol. E então saía a pular pela floresta, com seus braços e tromba estendidos, inutilmente tentando copiar o esplendor inimitável dos raios solares. Se passasse por um lago, via seu reflexo na água, e logo deixava de ser sol. Mas antes que pudesse assumir sua identidade tamanduá, Tadeu via uma pedra, achava que a pedra era ele e que ele era a pedra, e ficava imóvel o resto do dia na beira do lago, até que alguma boa alma passasse por ali e desfizesse o equívoco. E assim eram seus dias, com a variante de que às vezes acordava sentindo-se nuvem (para o caso de dias nublados), e não raras vezes sentia-se chuva (embora tivesse um instinto de sobrevivência aguçado e levasse pouco tempo para perceber que não deveria se jogar precipício abaixo).

      Lili, por sua vez, era uma jovem como todas as outras: tinha lábios carnudos e perigosos, um corpo escultural, com cinturinha fininha, bumbum arrebitado e nariz empinado. Para preservar um corpo desses, Lili vivia de dieta, e por isso só comia alimentos naturais ("tudo em nome de uma vida saudável", dizia). Ela adorava passar batom vermelho em seus lábios bifurcados, e até pareceria uma adolescente normal, exceto pelo fato de que era uma formiga — e uma formiga adolescente bastante sonhadora.
      Lili era apaixonada por Tadeu. Não bastasse a impossibilidade metafísica de um romance entre os dois (a donzela e seu predador natural), havia também uma enorme diferença de tamanhos (sem falar na inquestionável incompatibilidade de gênios). Mas como toda garota apaixonada, ela não percebia os defeitos, e só tinha olhos para as qualidades de seu amor. Tadeu gostava da natureza, como ela. Ele era meio desengonçado, como ela. Ele gostava de cavar buracos, como ela. O que poderia dar errado? Lili achava meigo o jeitinho meio perdidão de Tadeu, e adorava quando o encontrava parado no bosque, fingindo ser o pasto ou uma árvore. Assim ela podia observá-lo por inteiro, e admirar sua beleza sem ser incomodada. Ela odiava o fato de que seus semelhantes não passassem de uma mera aglomeração de três bolinhas de massa corpórea, enquanto que Tadeu era aquele ser maravilhoso, de corpo íntegro e contínuo. Ela contava para as amigas de seus delírios juvenis, e todas suspiravam em uníssono. Como são patéticas as jovens apaixonadas!

      Pois, bem, tudo começou quando Lili, a formiga operária, e Tadeu, o tamanduá sui generis, viram-se pela primeira vez (sim, fora amor à primeira vista!). Um dia, ao ver uma formiga (Lili, Lili!), Tadeu achou que fosse uma delas, e tentou entrar no formigueiro. O resultado foi catastrófico, pois aqueles que não foram esmagados pelas patas do desastrado tamanduá, morreram pisoteados na hora em que todas as formigas tentaram fugir ao mesmo tempo, em pânico, com medo de serem devoradas (nem todos sabiam que Tadeu era tantã). E ainda teve uma meia dúzia que se suicidou: antes a morte digna, que morrer nas garras (na tromba) de um horripilante predador.

      Mas Lili achou tudo isso muito "fofo", e, desde então, suspirava pelos cantos. Toda vez que via Tadeu, ora se fingido de ponte, ora agindo como um leão, a menina percebia que era com aquele tonto mesmo que queria passar todos os dias de sua vida.

      Lili começou, então, a seguir os passos de Tadeu, na esperança de que um dia ele a notasse (novamente). Ela nem se importava com a possibilidade de Tadeu confundir-se com ela: o que importava era que percebesse a sua existência.

      Em uma de suas andanças, Lili encontrou Waltz, o feiticeiro da floresta. Ele era um esquilo senil, mas muito esperto, que detinha conhecimentos de feitiçaria suficientes para transformar qualquer um no que quer que fosse. Muitos consideravam sua existência um verdadeiro mito, pois ninguém nunca o vira — ou então quem o encontrasse tratava muito bem de esconder o fato. Lili aproveitou a oportunidade para pedir alguns conselhos. Pediu ao sábio Waltz, o qual andava com o auxílio de uma bengala e usava pesados óculos de grau, que tornasse possível seu amor com o tamanduá. O esquilo pensou um pouco, coçou a cabeça, deu três ciscadas no chão, abriu uma noz que tinha no bolso e a saboreou tranqüilamente. Lili percebeu que ele tinha memória curta, e precisou repetir umas cem vezes o que queria, até que Waltz tomasse alguma providência. Foi preciso ter paciência com aquele velhote. Mas, por fim, Lili conseguiu o que queria: Waltz providenciou-lhe uma pílula de encolhimento, que dizia ser capaz de reduzir qualquer indivíduo ao mínimo de compactação possível, sem que perdesse sua essência. A formiga acreditou nas palavras do sábio, não tanto por ele ser quem fosse, mas pelo fato de que tudo aquilo estava escrito em um pesado livro empoeirado — o que reduzia os riscos de ser um mero devaneio de um velho gagá. Lili não ia arriscar ter de carregar uma rodela branca vinte vezes mais pesada que ela, para no fim descobrir que não surtiria efeito algum. Sua jovialidade impaciente exigia a certeza de que tudo daria certo.

      Com muita dificuldade, Lili conseguiu chegar em casa antes do anoitecer. Como o tamanduá morava não muito longe dali, contou com a ajuda de algumas de suas fiéis amigas para transportar o comprimido até a toca de Tadeu, que, felizmente, já se encontrava dormindo. Elas depositaram cuidadosamente a mercadoria próxima de sua tromba, e se retiraram em silêncio (embora a vontade de Lili fosse a de permanecer ali, indefinidamente, a admirar a beleza do tamanduá). No dia seguinte, Tadeu acordou e a primeira coisa que viu foi o comprimido. Acreditou ser o comprimido, e enrolou-se o tanto quanto pôde. Marcos, o macaco amigável, que por acaso passava por ali, resolveu espiar se Tadeu já tinha acordado e presenciou a bizarra cena de um tamanduá contorcionista. Marcos então chamou a atenção do amigo e, ao trazê-lo de volta a si ("você é um tamanduá... vamos! reaja!", apresentando-lhe um espelho que trazia consigo) percebeu a existência do pequenino comprimido branco. Como não soubesse do que se tratava, sugeriu que o amigo o tomasse. E então Tadeu tomou o comprimido, mas não sem antes Marcos ter sofrido para convencê-lo de que Tadeu não era ele, que Marcos era outra pessoa, e que tamanduás não eram macacos, nem macacos, tamanduás. Assim que Marcos foi embora, Tadeu começou a sentir umas pontadas estranhas, algumas dores abdominais, e, em seguida, estava tão pequeno quanto um alfinete de patinhas e tromba. Estava meio transtornado, com a vista embaçada (achou por um momento que ele era de fato um borrão, tentou agir como um, mas não recordava como um borrão devia ser e voltou a ser tamanduá... mas daí já era tarde, pois naquele momento ele podia ser tudo, menos um tamanduá!). De volta a sua natureza tamanduá, decidiu-se por perseguir formigas. Andou, andou, e acabou chegando ao formigueiro.

      Enfim, Tadeu, o tamanduá, ficou do tamanho de uma formiga — e desde então ele é a formiga mais estranha do formigueiro. Lili achou sem graça tê-lo do seu tamanho, e se apaixonou pela força e garra de Léo, o leão (uma jovem necessita de amores impossíveis!). Tadeu, que desde a ingestão do comprimido mágico só enxerga formigas, crê fielmente ser uma delas. E ninguém consegue tirar essa certeza de sua cabeça... (ou da delas...).

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[inspirado no personagem Gurdulu de O cavaleiro inexistente :P]




Comentários:

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